Sabores do Sertão: resistência e ancestralidade na culinária afrodiaspórica
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Sabores do Sertão: resistência e ancestralidade na culinária afrodiaspórica

Sabores do Sertão: resistência e ancestralidade na culinária afrodiaspórica Foto: Divulgação

Por Aline Chermoula*

O sertão é terra de força, onde a vida brota entre os espinhos da caatinga, ensinando sobre resistência, adaptação e abundância. Na culinária afrodiaspórica, os ingredientes do sertão ganham protagonismo, carregando histórias de luta, sobrevivência e tradição.

Um desses tesouros é o licuri, pequeno e poderoso, que há séculos nutre povos indígenas e afrodescendentes. Do leite extraído à farofa crocante, seu sabor adocicado traz um toque especial a pratos doces e salgados. É alimento sagrado, memória viva de um Brasil profundo.

O umbu, chamado de “árvore que dá de beber”, também é símbolo de fartura. Seus frutos suculentos transformam-se em sucos, doces e geleias, resgatando o sabor da infância de muitos nordestinos. Já o xique-xique, cacto espinhoso que desafia a seca, prova que até o mais inóspito dos cenários guarda alimento e vida.

Não podemos esquecer do feijão de corda, da farinha de mandioca, do bode assado e do andu, que fortalecem corpos e espíritos há gerações. Cada um desses ingredientes carrega não apenas nutrientes, mas histórias de ancestralidade e pertencimento.

Resgatar e valorizar os alimentos do sertão é um ato de resistência, uma forma de honrar os saberes que nos foram deixados. O que vem da terra seca também pode ser abundante, e na cozinha afrodiaspórica, esses sabores seguem vivos, cheios de axé e memória.

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Ceviche de umbu com peixe branco

O umbu, fruta típica do sertão, traz acidez e frescor para esta versão afrodiaspórica de ceviche. Uma receita leve, equilibrada e cheia de ancestralidade.

Ingredientes:

•300g de peixe branco fresco (tilápia, robalo ou outro de carne firme), cortado em cubos

•1 xícara de polpa de umbu (fruta madura, sem caroço e peneirada)

•Suco de 1 limão

•½ cebola roxa em fatias finas

•1 pimenta dedo-de-moça sem sementes, picada

•1 colher de chá de gengibre ralado

•1 fio de azeite de oliva ou óleo de licuri

•Sal e pimenta-do-reino a gosto

•Coentro e cebolinha picados a gosto

•Chips de batata-doce para acompanhar

Modo de preparo:

1.Em um bowl, misture o peixe com o suco de umbu e o suco de limão. Deixe marinar na geladeira por 20 minutos.

2.Acrescente a cebola roxa, a pimenta, o gengibre e tempere com sal e pimenta-do-reino. Misture bem.

3.Regue com o azeite de oliva ou óleo de licuri e finalize com coentro e cebolinha.

4.Sirva acompanhado de chips de batata-doce para dar crocância.

Essa receita traz o contraste perfeito entre o cítrico do umbu, a suavidade do peixe e o toque picante da pimenta, valorizando ingredientes do sertão com um toque contemporâneo.

* Aline Chermoula é chef de cozinha, pesquisadora e referência na culinária afrodiaspórica no Brasil. Seu trabalho valoriza ingredientes ancestrais, como o licuri e o dendê, conectando tradição e inovação gastronômica. Com uma abordagem afrocentrada, destaca a cozinha como expressão de identidade, memória e resistência.

Autora de um livro sobre o tema, Aline também compartilha seus conhecimentos em programas de TV e, agora, na coluna “Sabores e Saberes”, onde explora a riqueza da gastronomia afrodescendente.

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