Associação de Baianas desaprova ‘acarajé do amor’ e defende tradição
Por Hamurabi Dias | 02/08/2025 08:49 e atualizado em 04/08/2025
Foto: Reprodução/Redes Sociais
Resumo da notícia
- A Associação de Baianas de Acarajé (Abam) repudiou alterações na receita tradicional do acarajé, como a criação do "acarajé do amor" com recheios doces e morango em Aracaju e Maceió. A entidade defende a preservação do preparo original por seu valor cultural, religioso e ancestral.
- Diversas versões inusitadas do acarajé têm surgido nos últimos anos, como acarajé com creme de avelã, acarajé rosa, pizzajé, picoré e até ovo de Páscoa de acarajé. Essas versões são criticadas pela Abam, que considera que tais modificações desrespeitam a tradição e o valor sagrado do prato no candomblé.
- O acarajé, de origem africana, é um alimento sagrado ligado ao candomblé, preparado com massa de feijão fradinho e recheado com vatapá, caruru e camarão. Reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2005, o quitute representa resistência, tradição e sustento histórico das baianas.
A Associação de Baianas de Acarajé (Abam), em Salvador, emitiu uma nota de repúdio, na sexta-feira (1), contra alterações feitas na receita do quitute para se assemelhar ao “morango do amor”, em Aracaju (SE) e Maceió (AL).
Normalmente, o acarajé é acompanhado do caruru, vatapá, camarão e salada vinagrete. No entanto, os bolinhos batizados de “acarajé do amor” vendidos nesses dois municípios são servidos com doce e morango.
Em nota, a Abam reforçou a tradição do ofício das baianas e do acarajé e disse que não aceita qualquer tipo de alteração na receita e no modo de preparo dos quitutes, destacando a atitude como “sem propósito”.
“Somos empreendedoras ancestrais e focadas na tradição deixada por nossos antepassados, sem surfar nas influências contemporâneas sem propósito”, diz o pronunciamento.
Conheça os ‘acarajés do amor’
Na cidade de Maceió, a iguaria é servida no Acarajé da Irmã Jane, de forma parecida com o tradicional, recheando o quitute. Porém, ao invés dos acompanhamentos tradicionais, são colocados brigadeiro convencional, brigadeiro de leite em pó e morangos.
Já em Aracaju, mini-acarajés são cobertos por brigadeiro de leite em pó e caramelo. Em entrevista ao g1 em Sergipe, a empreendedora Ingrid Carozo, de 36 anos, disse que teve a ideia após o sucesso do “morango do amor”.
“No dia que eu vi que o morango do amor estava em alta, comprei os ingredientes e junto com a cozinheira fizemos o acarajé do amor e divulgamos na rede social do nosso estabelecimento”, contou.
Mas a sergipana reforçou que o objetivo não é ferir a tradição. “Eu acho normal dividir opiniões, ninguém pensa igual a ninguém, a gastronomia pode ir além da nossa imaginação. Eu entendo as críticas e respeito a religião, porém teve outra cidade que fez e não houve crítica. […] O acarajé do amor foi feito pra divulgação, só para entrar no clima do momento”.
O estabelecimento da família funciona há 26 anos na Zona Sul de Aracaju e é conhecido por receitas que mudam a forma tradicional de servir o quitute:
• acarajéburguer;
• acarajé com creme de avelã;
• acarajé pizza;
• espetinho de acarajé.
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Outras polêmicas
Além do “acarajé do amor”, outras mudanças na forma como é servida o acarajé viraram tema de polêmica na Bahia. A mais recente é o acarajé rosa, em homenagem ao filme da Barbie, que foi lançado em 2023, na capital baiana.
Em 2017, a mesma criadora do acarajé cor de rosa, Adriana Ferreira, lançou a barca de acarajé e abará, em referência à barca de comida japonesa. No lugar de sashimi, hot holl, uramaki e outros tipos da iguaria oriental, estavam os quitutes com camarão, vatapá e salada.
No mesmo ano, o acarajé e o abará ganharam formato de pizza pelas mãos da estudante de gastronomia e “personal chef” baiana, Claudia Cristina Santos Conceição, em Salvador. Na época desempregada, ela criou a “pizzajé” e a “pizzará” para pagar as contas.
Não satisfeita, Claudia Cristina criou o “picoré” e o “picorá” em 2020. A receita tem a mesma proposta das pizzas: investir no sabor do acarajé e do abará, mas em formato de picolé.
Na febre dos ovos de páscoa recheados, Claudia também aderiu à moda com o ovo de acarajé e o ovo de abará. Na mesma linha dos outros produtos, a base do ovo, que normalmente seria a casca de chocolate, são os quitutes baianos.
Já em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, a vendedora Daniele Paiva, criou uma receita de acarajé doce. A massa tradicional, que é preparada com feijão fradinho, passou a levar goiabada e açúcar.
Todos foram reprovados pela Abam. A entidade destaca que o quitute é “um patrimônio”, e que, no máximo, as versões podem ser chamadas de bolinho de feijão. Isso porque, no universo do candomblé, o acarajé é comida sagrada e ritual, ofertada aos orixás, sendo uma das razões pela qual a receita se mantém sem muitas alterações.
O Acarajé
O acarajé é um bolinho de massa de feijão frito no azeite de dendê. A massa é feita com feijão fradinho moído, água, sal e cebola.
Antigamente, as baianas demoravam um dia inteiro para tirar a casca do feijão fradinho e fazer a massa do acarajé. Hoje, elas compram já descascado, o que gera uma economia de tempo, e mantém o mesmo sabor, além de custar menos.
A cebola é misturada à massa pouco antes da fritura do bolinho no azeite de dendê. O recheio é vatapá, caruru e camarão seco (defumado).
A preparação do àkàrà je, que significa comer bola de fogo na língua Iorubá, desembarcou no Brasil junto com os escravos oriundos do Golfo do Benim, na África Ocidental.
No universo do candomblé, o acarajé é comida sagrada e ritual, ofertada aos orixás, sendo uma das razões pela qual a receita do acarajé se mantém sem muitas alterações.
Transmitida oralmente ao longo dos séculos por sucessivas gerações, o acarajé era comercializado no período colonial pelas escravas de ganho ou negras libertas, proporcionando a elas a sobrevivência após a abolição da escravatura.
Séculos depois, o ofício ganhou o Dia Nacional da Baiana do Acarajé, comemorado em 25 de novembro, e, desde 2005, foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
No ano de 2012, foi a vez do reconhecimento ser registrado em âmbito estadual, pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac).
Com informações do g1 BA.
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