21 de janeiro: dia de combate à intolerância religiosa. ‘Ter humanidade é divino’
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21 de janeiro: dia de combate à intolerância religiosa. ‘Ter humanidade é divino’

21 de janeiro: dia de combate à intolerância religiosa. ‘Ter humanidade é divino’

Por Dandara Barreto*

Feira de Santana-BA, 21 de janeiro de 2025 – Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa foi instituído pela Lei nº 11.635/2007 e marca a memória da Iyalorixá Mãe Gilda, que faleceu em 2000 após sofrer ataques motivados por intolerância religiosa. A data não apenas homenageia Mãe Gilda, mas também reforça a luta contra a discriminação e a violência que ainda atingem as práticas religiosas no Brasil.

Infelizmente, os números evidenciam o tamanho do problema. Em 2024, o Disque 100 registrou 3.853 denúncias de intolerância religiosa, um aumento de 81% em relação a 2023, que teve 2.128 registros. Os estados com os maiores índices de denúncias foram São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia. Religiosos de matriz africana seguem sendo as maiores vítimas, com 499 violações contra o candomblé e a umbanda em 2024, de acordo com dados consolidados. Na Bahia, no primeiro semestre de 2024, o Centro Nelson Mandela, vinculado à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), recebeu 70 denúncias de intolerância religiosa e racismo.

Quando a gente fala de intolerância religiosa, isso abrange todas as religiões. É a defesa de que qualquer credo pode e deve ser proferido e praticado, sem restrições, desde que isso não fira a lei. Mas, há líderes religiosos que tomam como doutrina a perseguição a outras religiões. E quando chegamos neste assunto, os dados trazidos acima falam por si: é das religiões de matrizes africanas que estamos falando.

Ainda estamos assistindo o desenrolar de uma “treta” homérica na axé music, protagonizada por Cláudia Leitte, que troca o nome de Iemanjá por Yeshua sempre que canta uma determinada canção. Tenho uma opinião sobre isso, mas vou dar lugar de fala à minha preguiça de explanar este assunto, já que ele está exaurido nas redes sociais. Embora o tema precise mesmo seguir sendo discutido.

Minha reflexão sobre o tema veio enquanto conversava com meu irmão.

Eu, ex-católica praticante da Renovação Carismática e hoje sem religião. Ele, evangélico desde pequeno. Tanto eu quanto ele crescemos ouvindo que orixás são demônios. Fomos forjados no medo com relação a este assunto. Logo, “tá repreendido” era o que primeiro tínhamos a dizer quando o nome de um orixá fosse mencionado perto de nós.

Estávamos na frente do mar quando o assunto “intolerância religiosa” surgiu.

— Por que as pessoas demonizam a fé alheia, se fé é algo pessoal e intransferível? — foi a pergunta que ele me fez.

Dá gosto de ver um menino de 20 anos, criado na igreja, com sua fé cristã consolidada, pensar dessa maneira; do jeito que Jesus ensinou e não como os fariseus agiam e mataram o próprio Cristo pela mesma razão.

Olhando para a pele preta do meu irmão e aquele mar imenso, eu não pude deixar de pensar na dor testemunhada por aquelas mesmas águas, por séculos, enquanto navios cheios de homens e mulheres eram traficados para serem escravizados.

A única coisa maior do que a aflição infinita de quem estava naqueles navios imundos, sem qualquer gota de dignidade, era a fé. Em meio à dor, qualquer pessoa se apega a ela. E a fé ensinada àquelas pessoas, que eram desumanizadas com as bênçãos da igreja, era a fé nas forças da natureza, chamadas pelos que falavam iorubá de orixás, pelos que falavam quimbundo de inkisis, e por tantos outros nomes de tantas outras nações da imensa mãe África.

Bom… dei essa volta para dizer que refletimos juntos que não podemos ter o direito de invalidar e maldizer a única coisa que os nossos irmãos escravizados podiam ver e sentir além de açoites, suor e sangue.

A água do mar e sua imensidão. O ar, o vento, a chuva, os trovões. Os raios que cortavam o céu. As folhas que lhes curavam  feridas. O fogo que lhes aquecia.

Anular tudo isso e chamar-lhes de endemoniados e impor a fé naquilo que autorizava sua animalização — porque, repito, era isso que a igreja fazia, dizia que negros não tinham alma, logo, podiam ser escravizados — não é só crime, segundo o Código Penal (artigo 20 da Lei nº 7.716/1989), mas é pactuar com mais este cativeiro, mesmo tendo nós “libertado” essas pessoas há 137 anos.

Por que a intolerância religiosa persiste?

A intolerância religiosa é um crime que reflete o racismo estrutural no Brasil. Não é suficiente que a Constituição assegure a liberdade de crença (Art. 5º, inciso VI) e que a lei tipifique como crime a discriminação religiosa. É necessário ir além: educar, promover o diálogo, desconstruir estereótipos e principalmente nos humanizarmos, para então, ver divindade em qualquer atitude

Que este 21 de janeiro seja um convite à reflexão e à ação. A liberdade de crença é um direito. E respeito é o que torna uma sociedade verdadeiramente livre e justa.

Dandara Barreto é feirense, mãe e Jornalista. Atua como coordenadora de jornalismo do Grupo Lomes de Comunicação e é âncora do Jornal da Manhã da Rádio Jovem Pan e do Programa Transnotícias, da rádio Transbrasil FM. 

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