A casa como território cultural: afeto, memória e o poder do íntimo
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A casa como território cultural: afeto, memória e o poder do íntimo

A casa como território cultural: afeto, memória e o poder do íntimo Foto: Divulgação

Aline Chermoula*

A casa é mais do que um espaço físico. Ela é um território simbólico, um lugar onde a vida cotidiana se transforma em cultura viva. Na antropologia, a casa é compreendida como um espaço de produção de sentidos, onde se constroem identidades, vínculos e formas de estar no mundo. Não é apenas onde se mora, mas onde se aprende a sentir, a cuidar e a lembrar.

Claude Lévi-Strauss já apontava que as estruturas familiares organizam não só relações de parentesco, mas também sistemas de valores e transmissão cultural. É dentro da casa que esses sistemas ganham corpo: nos gestos repetidos, nas rotinas aparentemente simples, nas palavras ditas à mesa. O afeto, nesse contexto, não é apenas emoção — é prática social, é aprendizado diário.

O íntimo da família carrega um poder silencioso. É ali que o tempo desacelera, que o corpo encontra abrigo, que a escuta acontece sem espetáculo. A sociologia da vida cotidiana, especialmente em autores como Michel de Certeau, nos ajuda a entender a casa como um espaço de resistência ao ritmo acelerado do mundo externo. Cozinhar, arrumar, sentar para comer juntos são atos pequenos, mas profundamente políticos: afirmam a importância do cuidado, da presença e do pertencimento.

A memória, nesse território, não está guardada apenas em fotografias ou objetos, mas nos cheiros, nos sons e nos sabores. A comida ocupa um lugar central nesse processo. Receitas são narrativas transmitidas de geração em geração, muitas vezes sem estarem escritas. Elas carregam histórias de migração, escassez, celebração e afeto. Preparar um prato da família é, ao mesmo tempo, cozinhar e lembrar.

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A antropologia da alimentação reconhece a cozinha como um espaço fundamental de socialização. É ali que se aprende sobre gênero, tempo, espera, partilha e amor. Cada receita feita “do jeito que sempre foi” reafirma laços e cria continuidade entre passado, presente e futuro. Mesmo quando adaptadas, essas receitas seguem sendo um elo — uma forma de dizer “somos daqui”, mesmo que o mundo mude ao redor.

A casa, portanto, é um arquivo vivo. Um lugar onde a cultura não está cristalizada, mas em movimento. Onde o afeto organiza o espaço, a memória dá sentido ao tempo e o íntimo se torna força. Em um mundo cada vez mais público e acelerado, reconhecer a casa como território cultural é também um gesto de valorização da vida comum, das histórias pequenas e da beleza que existe no cotidiano compartilhado.

Porque é na casa que a cultura respira. E é no afeto que ela se mantém viva.

Aqui vai uma receita simples, afetiva e cheia de memória, pensada para acompanhar o artigo e dialogar com a ideia de casa como território cultural. 🤍


Bolo de Afeto (daqueles que a casa reconhece pelo cheiro)

Esse é um bolo que não pede ocasião. Ele nasce do cotidiano, do café passado sem pressa, da cozinha habitada. É receita de casa viva.

Ingredientes

• 3 ovos

• 1 xícara de açúcar

• ½ xícara de óleo ou manteiga derretida

• 1 xícara de leite

• 2 xícaras de farinha de trigo

• 1 colher de sopa de fermento em pó

• 1 pitada de sal

• Opcional: raspas de limão ou laranja, ou 1 colher de chá de canela

Modo de preparo

1. Em uma tigela, bata os ovos com o açúcar até clarear.

2. Acrescente o óleo (ou manteiga) e o leite, misturando com calma.

3. Incorpore a farinha aos poucos, junto com a pitada de sal.

4. Finalize com o fermento, mexendo delicadamente.

5. Leve ao forno pré-aquecido a 180 °C por cerca de 35 a 40 minutos, até dourar e perfumar a casa inteira.

Como servir

Sirva ainda morno, com café coado na hora ou chá feito sem pressa.

Esse bolo não precisa de cobertura — ele se sustenta na memória.

Receita de casa não é sobre precisão.

É sobre repetição, cuidado e presença.

CONTEÚDO EM ÁUDIO

* Aline Chermoula é chef de cozinha, pesquisadora e referência na culinária afrodiaspórica no Brasil. Seu trabalho valoriza ingredientes ancestrais, como o licuri e o dendê, conectando tradição e inovação gastronômica. Com uma abordagem afrocentrada, destaca a cozinha como expressão de identidade, memória e resistência.

Autora de um livro sobre o tema, Aline também compartilha seus conhecimentos em programas de TV e, agora, na coluna “Sabores e Saberes”, onde explora a riqueza da gastronomia afrodescendente.

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Uma resposta para “A casa como território cultural: afeto, memória e o poder do íntimo”

  1. Luiz Eu Mesmo disse:

    Parabéns chef 🧑🏾‍🍳

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