A estética da abundância: a beleza indomável da comida africana
Por Coluna Sabores & Saberes | 03/05/2026 10:56 e atualizado em 03/05/2026
Foto: Divulgação/Chermoula Cultura Culinária
Por Aline Chermoula*
Por muito tempo, o olhar ocidental tentou enquadrar a comida dentro de limites visuais, bordas limpas, porções exatas, composições milimetricamente pensadas. A herança da haute cuisine ensinou o mundo a admirar o prato como quem observa uma obra intocável. Mas há outras formas de beleza. Mais antigas, mais táteis, mais vivas.
A estética da comida africana não se organiza para ser contemplada à distância, ela acontece no encontro. No calor. No gesto. Em regiões como a África Ocidental, a comida é, antes de tudo, partilha. Travessas generosas ocupam o centro da mesa, e o ato de comer deixa de ser individual para se tornar coletivo, quase ritualístico. A beleza não está na separação dos elementos, mas na fusão deles.
Há algo profundamente sofisticado nessa abundância. O brilho intenso do óleo de palma, os vermelhos densos dos molhos, os dourados dos grãos, os verdes vibrantes das folhas, uma paleta que não teme o excesso, porque entende que o excesso, aqui, é linguagem. Não há minimalismo: há expressão.
A textura é uma assinatura. Preparações como o fufu convidam ao toque, rompendo com a distância imposta pelos talheres. Comer com as mãos não é falta de refinamento, é intimidade com o alimento, é presença plena. É um gesto que conecta corpo, cultura e memória.
Se a estética europeia construiu uma lógica de distinção — onde cada elemento no prato afirma sua individualidade, a cozinha africana celebra a mistura como identidade. Ingredientes se encontram, se transformam e se tornam inseparáveis. Não há hierarquia entre eles. Há diálogo.
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E é nesse encontro que surge um dos pratos mais emblemáticos do continente: o jollof rice. Mais do que uma receita, o jollof é território, disputa afetiva, símbolo cultural. Presente em países como Nigéria, Gana e Senegal, ele carrega variações que refletem histórias locais — e paixões intensas sobre qual versão é a melhor.
Seu vermelho profundo, quase terroso, não é apenas visual — é sensorial. Cada colherada revela camadas de sabor que falam de técnica, de tempo e de herança.
Receita afetiva de Jollof Rice
Ingredientes:
• 2 xícaras de arroz de grão longo
• 4 tomates maduros
• 1 pimentão vermelho
• 1 cebola grande
• 2 dentes de alho
• 1 colher (chá) de gengibre fresco ralado
• 3 colheres (sopa) de óleo (tradicionalmente óleo de palma, mas pode usar outro)
• 2 colheres (sopa) de extrato de tomate
• 3 xícaras de caldo (frango ou legumes)
• 1 colher (chá) de páprica
• 1 colher (chá) de curry
• 1 folha de louro
• Sal e pimenta a gosto
Modo de preparo:
1. Bata os tomates, o pimentão, metade da cebola, o alho e o gengibre até obter um molho espesso.
2. Em uma panela larga, aqueça o óleo e refogue a cebola restante até dourar.
3. Adicione o extrato de tomate e cozinhe até escurecer levemente — esse passo intensifica o sabor.
4. Incorpore o molho batido e cozinhe em fogo médio até reduzir e concentrar.
5. Tempere com páprica, curry, louro, sal e pimenta.
6. Acrescente o arroz cru e misture bem, envolvendo cada grão no molho.
7. Adicione o caldo quente, tampe parcialmente e cozinhe em fogo baixo até o arroz absorver o líquido e ficar macio.
8. Finalize soltando os grãos com um garfo — ou simplesmente sirva direto da panela, como manda a tradição.
Exaltar a estética da comida africana é reconhecer que há beleza naquilo que pulsa. Que há elegância na intensidade. Que há arte no coletivo.
Num mundo que ainda associa sofisticação à contenção, a cozinha africana afirma o oposto: o verdadeiro luxo pode estar na generosidade, no excesso e na memória que se reparte à mesa.
* Aline Chermoula é chef de cozinha, pesquisadora e referência na culinária afrodiaspórica no Brasil. Seu trabalho valoriza ingredientes ancestrais, como o licuri e o dendê, conectando tradição e inovação gastronômica. Com uma abordagem afrocentrada, destaca a cozinha como expressão de identidade, memória e resistência.
Autora de um livro sobre o tema, Aline também compartilha seus conhecimentos em programas de TV e, agora, na coluna “Sabores e Saberes”, onde explora a riqueza da gastronomia afrodescendente.
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