Coluna Habla Mesmo: Francisco, como foi doce sentir
Por Dandara Barreto | 21/04/2025 18:25 e atualizado em 21/04/2025Por Dandara Barreto*
Eu, uma sul-americana católica “ex-praticante”, cansada dos ritos, mas jamais do sagrado. Que se afastou das fileiras da missa e até da fé, vez por outra, mas trazida de volta a ela pela devoção à São Francisco, o santo que amava os animais, que pregava a simplicidade como forma de grandeza. Vibrei – sim, vibrei – todos os dias desses doze anos em que o também sul-americano, também franciscano, esteve à frente da Igreja que mais feriu o mundo em nome de Deus.
Porque essa Igreja, de tantas luzes, também foi feita de sombras. Cruzadas, inquisições, fogueiras, pactos com ditaduras, silêncios cúmplices. A mão que batizava era, muitas vezes, a mesma que excluía, que apontava, que marginalizava. E então, veio ele. Um argentino. Um jesuíta. Um papa chamado Francisco – o primeiro com esse nome. E com ele, um sopro de vento pela basílica estagnada.
Francisco não calçava sapatos vermelhos. Não morava nos luxuosos aposentos papais. Trocou o trono por uma cadeira simples, a escolta por apertos de mão. Não apenas pregava o Evangelho – encarnava-o. Lavava os pés de presidiários, beijava crianças com deficiência, comia no refeitório dos funcionários, andava de Fiat Uno. Um gesto não para impressionar, mas para ensinar.
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Suas palavras cortavam como o bisturi do profeta:
“Quem sou eu para julgar?” — disse, ao falar dos homossexuais.
“Melhor ser ateu, que cristão hipócrita”
“Esta economia mata.” – bradou, enfrentando o sistema que naturaliza a miséria.
“O proselitismo é uma solenidade boboca.” – ousou, e foi acusado de heresia.
Sim, chamaram o papa de herege. Porque ele que apontava os pecados da Cúria, que denunciava o “terrorismo das fofocas” dentro do Vaticano, que falava de acolhimento enquanto outros ainda pregavam exclusão, era visto com desconfiança pelos mesmos que há séculos se acham donos do Céu.
Mas Francisco foi o pastor que não teve medo do lobo. Comoveu o mundo ao pedir “Rezem por mim” no seu primeiro discurso como pontífice. Não subiu ao trono: desceu ao povo. Trouxe para dentro da Igreja a palavra “misericórdia” como ponte entre fé e humanidade. E, como São Francisco, amou todas as criaturas: os pobres, os migrantes, a Amazônia, os esquecidos.
Graças a ele, pela primeira vez na história, uma mulher – assumiu o governo da Cidade do Vaticano, um território simbólico e real onde até então só homens tinham voz e caneta. Um gesto que poderia parecer pequeno, mas que abre portas como quem escancara janelas para o sol entrar.
Francisco, o Papa do fim do mundo, talvez tenha vindo para que o mundo recomece. Seu legado não é feito de dogmas, mas de gestos. Não é feito de poder, mas de presença. Um Papa que nos fez reaprender a ver Deus no outro. Que, mesmo sob olhares tortos, caminhou reto no seu propósito. Que escolheu ser ponte, quando tantos preferem muros.
Hoje, ele parte. Ou talvez fique. Porque há homens que morrem e há os que permanecem. Francisco é desses que ficam – na memória, no afeto, nos corações inquietos que ainda acreditam que espiritualidade não combina com arrogância. Que igreja não é castelo, é abrigo. Que fé não é sentença, é encontro.
E que o verdadeiro milagre é amar com simplicidade.
Dandara Barreto é feirense, mãe e Jornalista. Atua como coordenadora de jornalismo do Grupo Lomes de Comunicação e é âncora do Jornal da Manhã da Rádio Jovem Pan e do Programa Transnotícias, da rádio Transbrasil FM.
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