Coluna O Jogo e o Tabuleiro: ‘Feira, eu te conheço?’
Por Coluna O Jogo e o Tabuleiro | 19/06/2025 18:47 e atualizado em 19/06/2025
Foto: Divulgação/Secom
Victor Limeira*
Reflexões sobre identidade, orgulho e os desafios de amar uma cidade que não cabe em rótulos
Brás Cubas não era nem patriota, nem ufanista, nem bairrista. Através do seu ilustre personagem, Machado de Assis criticou a sociedade da época e os comportamentos da dita aristocracia carioca por meio de suas memórias póstumas. Se a história não fosse ambientada no Rio de Janeiro do século XIX, podíamos dizer que foi contada em Feira de Santana.
Nessa perspectiva, sou a antítese de Brás. Nem patriota, nem ufanista, porque no Brasil atual virou quase ofensa carregar esses brasões. Mas bairrista a gente precisa ser, afinal, já dizia minha avó: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. E Feira é o meu país.
Nos últimos dias, viralizou nas redes sociais a declaração de um influenciador falando mal da nossa cidade. Nas palavras dele, “Feira não tem nada” e o que ele quer mesmo é ir embora daqui. Instalou-se então uma verdadeira rebordosa digital. De um lado, um exército poderoso logo se manifestou em defesa da princesa do sertão. “Feira tem cultura, tem teatro, tem samba de roda”, gritou o mais entusiasmado. “Todos os caminhos levam à Feira de Santana”, berrou a última fã de Carlos Pitta. “Ali na antiga Farmácia Silva, que hoje é uma academia neopentecostal, já foi uma obra de Oscar Niemeyer”, delirou a última historiadora. Pronto, foi armado o caldeirão, com direito a impropérios e “joga bosta na Geni”.
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Logo também apareceram os avacalhadores da cidade, junto aos saudosistas e, para além do bairrismo, trouxeram fatos e verdades. “Festa boa era no Cajueiro”, gritou o primeiro. “Coisa era no Tênis Clube, viu?”, lembrou a senhora Santana. “E a micareta? Já prestou um dia!” “A Expofeira foi de arrasta?” Os insultos seguiram.
A verdade é que falar mal de Feira é moda muito antes dos trending topics e dos virais, e muito disso se deve à nossa formação sociocultural. Carlos Pitta não mentiu quando disse que todos os caminhos davam aqui, e assim a nossa cidade se formou. A minha geração, por exemplo, é a primeira 100% 075 da família. Sou neto de cearenses, pernambucanos e paraibanos que aqui chegaram e fincaram raízes. Mas é aquele negócio que escreveu Gonçalves Dias na Canção do Exílio: “as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá” e Feira foi sobrando.
A mídia da capital, por sua vez, tem sua parcela de contribuição. Minimizar Feira e falar mal da nossa cidade foi a forma mais fácil que encontraram de transformar Salvador como sinônimo de Bahia, e nos fizeram acreditar que só Feira é feia, violenta, pitoresca e não tem nada que preste. Assim deixamos o nosso orgulho de lado e adotamos o discurso de que “ninguém pode falar mal de Feira, só a gente mesmo”. Pronto. Nos tornamos nós mesmos os multiplicadores dessa mensagem, que ecoou aos quatro cantos.
Feira é, sim, uma cidade grande em extensão territorial, em número de habitantes, em volume de negócios gerados. A princesa do sertão é maior do que muitas capitais brasileiras e uma das maiores cidades do país. Eu poderia aqui citar números, rankings, índices. Mas reafirmar o óbvio também não varre para debaixo do tapete os problemas que a nossa cidade enfrenta. Aqui, santo de casa não faz milagre, e até o “cantor e a cantora que são de Feira” precisaram ir embora para um dia lotar a Praça da Matriz.
Sim, o nosso problema é de autoestima mesmo. Como alguém que se olha no espelho e não se reconhece em suas virtudes e singularidades. Mas também é problema de política pública, daquilo que precisa ser mudado, melhorado, combatido. No afã de ser metrópole, negamos a nossa vocação de interior e hoje ficamos nesse limbo de reafirmação, sem ser nem uma coisa nem outra.
Feira não precisa de mártires, nem de linchamentos simbólicos. Precisa, talvez, de um espelho mais nítido e de coragem para se encarar de frente, com tudo o que tem de grande e de contraditório. Nessa discussão tão em voga sobre o amor próprio, Feira talvez só precise se aceitar, se conhecer e se reconhecer.
Porque jogar bosta na Geni pode até render aplausos momentâneos e likes, mas nada resolve. É hora de dizer para o influenciador e para todos, quem somos e de onde viemos: Eu sou de Feira de Santana e “Quem é você pra derramar meu mugunzá?”.
Victor Limeira é Jornalista, estrategista político e feirense até roer os ossos.
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