Consulta pré-anestésica pode evitar complicações e até cancelamento de cirurgias
Por Hamurabi Dias | 11/08/2026 19:07 e atualizado em 11/08/2026
Foto: Divulgação
Resumo da notícia
- A consulta pré-anestésica identifica doenças, alergias, medicamentos e histórico de cirurgias, permitindo definir a técnica anestésica, o tempo adequado de jejum e os cuidados necessários para reduzir riscos e evitar cancelamentos.
- Jejum inadequado pode aumentar o risco de broncoaspiração, enquanto períodos excessivos podem causar desidratação e alterações metabólicas. Medicamentos para diabetes, hipertensão, anticoagulantes e outros devem ser ajustados somente com orientação médica.
- Medicamentos como agonistas de GLP-1 e GLP-1/GIP podem retardar o esvaziamento gástrico. A Sociedade Brasileira de Anestesiologia recomenda avaliar individualmente fatores como início ou aumento recente da dose e sintomas gastrointestinais. O paciente deve informar o uso ao anestesiologista e não suspender a medicação por conta própria.
Pacientes que serão submetidos a cirurgias, exames ou outros procedimentos com sedação ou anestesia precisam passar por uma avaliação pré-anestésica adequada. Longe de ser apenas uma formalidade, a consulta permite identificar condições que podem interferir na segurança do procedimento, definir corretamente o tempo de jejum e orientar sobre a manutenção, o ajuste ou a suspensão de medicamentos.
A avaliação deve ocorrer antes de procedimentos que envolvam anestesia geral, bloqueios, anestesia local ou sedação. Durante a consulta, o anestesiologista investiga as doenças preexistentes, os medicamentos utilizados, alergias, cirurgias anteriores e possíveis complicações ocorridas em outras anestesias.
Também são avaliados fatores como pressão arterial, condições cardíacas, respiratórias, renais e metabólicas, além das características das vias aéreas do paciente. Essas informações ajudam a definir a técnica anestésica mais adequada e os recursos que deverão estar disponíveis durante o procedimento.
Segundo o anestesiologista Diego Argolo, a consulta é o momento em que o profissional conhece o paciente e consegue antecipar situações que poderiam representar riscos dentro da sala cirúrgica.
“Precisamos saber quais são as comorbidades, se o paciente já passou por procedimentos cirúrgicos e anestésicos, se possui alguma alergia e se enfrentou alguma intercorrência anteriormente. Também fazemos uma pesquisa ativa sobre doenças e medicamentos que possam interferir no procedimento”, explica.
A avaliação pré-anestésica integra as medidas de segurança previstas nas normas do Conselho Federal de Medicina. Para procedimentos eletivos, as condições clínicas do paciente devem ser conhecidas antecipadamente, preferencialmente antes da internação. A regulamentação também prevê o registro das informações, o planejamento anestésico e a apresentação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Jejum inadequado pode representar riscos
Uma das principais orientações definidas na consulta é o tempo de jejum. A recomendação não deve ser igual para todas as pessoas, pois depende do tipo de alimento ingerido, do horário do procedimento, das condições clínicas e dos medicamentos utilizados pelo paciente.
Um período menor do que o necessário pode fazer com que ainda exista conteúdo no estômago durante a anestesia. Nessa situação, o material pode retornar e atingir os pulmões, provocando uma broncoaspiração, complicação que pode comprometer as vias respiratórias.
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Por outro lado, manter o paciente sem comer ou beber por um período muito maior do que o necessário também pode provocar desconforto, sede, desidratação, alterações metabólicas e queda da pressão arterial.
“Orientações equivocadas podem deixar o paciente em jejum por um período mais longo do que o necessário ou, no sentido contrário, por um tempo insuficiente. A avaliação individualizada é fundamental para estabelecer uma preparação segura”, alerta Diego.
Protocolos assistenciais indicam que a avaliação pré-anestésica contribui para reduzir complicações, diminuir a ansiedade, melhorar a preparação do paciente e evitar suspensões de cirurgias no dia marcado.
Canetas de emagrecimento exigem atenção especial
O uso crescente das chamadas canetas de emagrecimento acrescentou uma nova preocupação ao planejamento anestésico. Medicamentos utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes, como os agonistas do receptor GLP-1 e os coagonistas GLP-1/GIP, podem retardar o esvaziamento do estômago.
Isso significa que alguns pacientes podem continuar apresentando conteúdo gástrico mesmo após cumprirem o período habitual de jejum, elevando o risco de regurgitação e broncoaspiração durante a anestesia.
As recomendações sobre esses medicamentos passaram por atualizações nos últimos anos. Atualmente, não existe uma regra única de suspensão para todos os pacientes. A decisão deve considerar o tipo de medicamento, o tempo de uso, a dose, a fase do tratamento, a presença de sintomas gastrointestinais e o procedimento que será realizado.
“As orientações vêm sendo atualizadas à medida que surgem novas evidências. Por isso, o paciente precisa informar ao anestesiologista que utiliza essas medicações, mesmo quando o uso é apenas para emagrecimento. Não se deve suspender ou manter o medicamento por conta própria”, orienta Diego.
Em recomendação publicada em maio de 2026, a Sociedade Brasileira de Anestesiologia reforçou que a conduta deve ser individualizada. Entre os fatores de maior risco estão o início recente do tratamento, o aumento recente da dose e sintomas como náuseas, vômitos, refluxo e sensação de estômago cheio.
Medicamentos não devem ser interrompidos sem orientação
A consulta também é importante para definir como o paciente deverá utilizar seus medicamentos nos dias anteriores à cirurgia. Remédios para diabetes, hipertensão, doenças cardíacas e anticoagulantes, entre outros, podem exigir recomendações específicas.
Suspender uma medicação que deveria ser mantida pode provocar uma descompensação clínica. Continuar utilizando um medicamento que precisava ser ajustado ou interrompido também pode aumentar o risco de sangramentos, alterações da pressão, mudanças na glicemia ou outras complicações.
“A orientação depende da doença, do medicamento, da dose e do tipo de procedimento. Não é seguro seguir uma recomendação genérica ou interromper o tratamento sem conversar com o médico”, destaca o anestesiologista.
Informação também reduz a ansiedade
Além da avaliação clínica, a consulta permite explicar como será a anestesia, quais técnicas podem ser utilizadas, como ocorre o monitoramento e o que o paciente pode esperar durante a recuperação.
Diego ressalta que essa conversa ajuda a diminuir medos e permite uma participação mais consciente do paciente nas decisões relacionadas ao procedimento.
“Quando o paciente recebe informações claras, ele consegue esclarecer dúvidas, compreender os cuidados necessários e chegar ao procedimento mais tranquilo e preparado. O termo de consentimento é importante, mas ele não substitui uma conversa cuidadosa”, afirma.
O anestesiologista recomenda que o paciente leve para a consulta uma lista de todos os medicamentos, suplementos e substâncias que utiliza, além de exames recentes e informações sobre cirurgias anteriores. Também é importante relatar alergias, dificuldades em anestesias passadas e problemas ocorridos com parentes próximos.
“A consulta pré-anestésica é uma oportunidade de prevenir. Quanto mais completas forem as informações, maior será a capacidade de planejar uma anestesia adequada às necessidades daquele paciente”, conclui Diego Argolo.
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