Curta-metragem ‘Carranca’, do cineasta feirense Daniel Sal, estreia no Festival de Cinema de Caruaru
Por Hamurabi Dias | 19/08/2026 15:19 e atualizado em 19/08/2026
Foto: Divulgação
Resumo da notícia
- O curta-metragem Carranca, dirigido pelo cineasta feirense Daniel Sal, estreia nesta quinta-feira (20) no 13º Festival de Cinema de Caruaru.
- A obra acompanha Vado, um homem de 50 anos que recebe um diagnóstico neurológico próximo ao réveillon e passa a enfrentar medos relacionados à morte, à fragilidade e aos próprios conflitos.
- Produzido em Feira de Santana, o filme aborda temas como masculinidade, autocuidado, saúde e finitude, com recursos de audiodescrição, legendas e Libras para garantir acessibilidade.
O ano vira, os fogos iluminam o céu e, enquanto todos celebram, um homem se afunda em seus medos. É nesse flerte entre festa e finitude que nasce Carranca, curta-metragem de Daniel Sal que estreia no 13º Festival de Cinema de Caruaru, nesta quinta-feira (20).
Com apenas 15 minutos, o filme apresenta uma narrativa direta e intensa. Tom Nascimento dá vida a Vado, um homem negro de 50 anos, de aparência rude e marcada pelo trabalho duro. Sua natureza taciturna e fechada o torna enigmático, ampliando o mistério que envolve suas escolhas e intensificando as tensões cena após cena. Ao lado de Karina de Faria e Rose Irene Visitação, que dão corpo às tensões íntimas, e de Dailton Mota, que assume o antagonismo, as atuações revelam dinâmicas distintas e evidenciam como morte e amor se entrelaçam, problematizando modelos de masculinidade ainda sustentados por fugas e pela recusa em lidar com a própria fragilidade.
Entre segredos e silêncios, Carranca acompanha Vado, um homem simples de meia-idade que, ao receber um diagnóstico neurológico próximo ao réveillon, vê sua vida atravessada por medo e fragilidade. Dividido entre duas mulheres e marcado por um paralisante medo da morte, ele se torna espelho de masculinidades que evitam o cuidado de si, deixando que a angústia e a precarização se inscrevam em seus corpos.
✅📲 AQUI A NOTÍCIA CHEGA PRIMEIRO: Seu novo portal de notícias de Feira de Santana e região! Entre no nosso grupo do WhatsApp e receba as principais notícias na palma da mão!
>> Siga o perfil oficial do T Notícias no Instagram para mais informações.
A doença neurológica que o protagonista enfrenta funciona como metáfora da finitude, presença constante que anuncia o limite da vida. Ela aparece tanto no cotidiano, em exames e diálogos, quanto em projeções psíquicas, criando camadas narrativas que ampliam o impacto da trama.
Produzido pelas Menino Amarelo Filmes e Palenque Filmes, sob a produção de David Aynan, Carranca foi realizado em Feira de Santana, cidade natal do autor e da maior parte da equipe. A escolha da locação não é apenas geográfica, mas simbólica: as paisagens locais atravessam o imaginário do roteiro e compõem atmosferas diversas que sustentam a narrativa. Feira vibra dentro do filme, funcionando como cenário e personagem, celebrando uma dimensão sociopolítica e estética que insiste em afirmar o território cultural e artístico da cidade.
Assim como em Menos Eu, seu curta anterior, Daniel Sal retoma o drama familiar como núcleo narrativo, mas em Carranca a abordagem se desloca para a angústia diante da finitude. Se antes o silêncio era o eixo central, agora é o diagnóstico neurológico que atravessa a vida de Vado e simboliza a proximidade do fim. Dividido entre duas mulheres e marcado por uma existência dura, o protagonista carrega em si, tanto os medos e traumas herdados de uma infância abusiva quanto a possibilidade de afeto e auto compaixão.
Essa ambiguidade dá densidade ao personagem e transforma sua trajetória íntima em reflexão coletiva sobre masculinidades, saúde e fragilidade humana. Ao articular intimidade e morte, o filme intensifica a sensação de angústia progressiva, buscando afetar o espectador com a mesma inquietação que atravessa o protagonista.
A fotografia de Edvaldo Raw e a montagem de Rudyally Kony, junto com a direção de arte de Marcelo Magalhães, constroem uma visualidade densa, onde cidade e narrativa se entrelaçam. Cada plano carrega o peso de uma despedida, cada corte sugere uma ferida aberta. O som também desempenha papel central: dialogando com referências do thriller psicológico e do pós-horror, a paisagem sonora assinada por Léo Rocha, constrói tensão e atmosfera, atuando tanto no fora de campo quanto nas dimensões psíquicas do protagonista. Neste processo, duas composições originais foram criadas especialmente para o filme, reforçando sua identidade estética.
O curta busca provocar reflexão sobre o autocuidado masculino, especialmente na transição da vida adulta para a velhice, quando diagnósticos se tornam mais frequentes e ameaçadores. Muitos homens, sobretudo negros e periféricos, foram socializados em uma lógica de autodoação e trabalho exaustivo, sem espaço para o cuidado de si. Carranca expõe como essa dinâmica pode levar a diagnósticos vividos com angústia desproporcional, revelando o peso do machismo e da precarização sobre esses corpos.
A direção de Daniel Sal, também roteirista da obra, sustenta o impacto ao equilibrar delicadeza e brutalidade. Ao articular intimamente a angústia do protagonista, constrói uma narrativa pulsante, capaz de transformar fragilidade em potência. Com recursos de audiodescrição, legendas e Libras, o curta se apresenta como obra acessível e plural.
Ao fim, Carranca é espelho incômodo e celebração, nos lembrando que cada cabeça é um mundo e que dentro de cada mundo há segredos, silêncios e medos.
Acompanhe nas redes sociais: Band FM, Jovem Pan FM e TransBrasil FM. Também estamos presentes no grupo do WhatsApp.
leia também
