Debate sobre inteligência artificial ganha espaço na FLICA 2026, em Cacheira
Bahia

Debate sobre inteligência artificial ganha espaço na FLICA 2026, em Cacheira

Debate sobre inteligência artificial ganha espaço na FLICA 2026, em Cacheira Foto: Gustavo Rozário

Resumo da notícia

  • A Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA) 2026 promoveu, na quinta-feira (5), um debate sobre inteligência artificial, criatividade e autenticidade na produção artística, com participação dos escritores Sandra Liss e André Carvalhal e mediação de Breno Fernandes.
  • Durante a discussão, os convidados abordaram a pressão por produtividade nas redes sociais e defenderam a importância de respeitar o tempo de criação, preservar a originalidade e valorizar as experiências humanas.
  • Os escritores revelaram que utilizam inteligência artificial em atividades como revisão, tradução, criação de imagens e divulgação, mas preferem manter a escrita literária como um processo pessoal, ligado à identidade, à imaginação e às vivências humanas.

A inteligência artificial (IA) já escreve textos, cria imagens, reproduz estilos e executa em segundos, tarefas que antes exigiam horas de trabalho. Mas será que tanta facilidade está nos tornando mais criativos ou apenas mais produtivos? E, se as máquinas podem fazer quase tudo, o que ainda queremos fazer por nós mesmos?

Essas questões atravessaram a mesa “(IA)gora, para onde vai a nossa imaginação?”, realizada na quinta-feira (5), na Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA). Diante do público que assistiu a primeira mesa do espaço Geração FLICA, com a curadoria de Deco Lipe, os escritores Sandra Liss e André Carvalhal, com mediação de Breno Fernandes, discutiram a pressão por resultados, a autenticidade na criação artística e o tempo que dedicamos àquilo de que realmente gostamos.

“E que hora você vai viver?” A pergunta de Sandra Liss surgiu quando Breno provocou os convidados a refletirem sobre a cultura da produtividade, que transforma a criação artística em uma corrida permanente por resultados. A escritora contou que, pouco depois de publicar o seu primeiro “Mulheres que Amam Assombradas”, em março, já começou a ouvir cobranças sobre o próximo lançamento. “As pessoas cobram mesmo. E quando vai sair o próximo? O que você está produzindo nesse momento?”, relatou. Sandra reconheceu que essa pressão também parte dos próprios autores, mas defendeu o direito de aproveitar cada etapa da criação. “Eu quero viver esse livro, eu quero viver o momento dele. Não quero correr”, reforçou. Embora já esteja escrevendo outra obra, não pretende antecipar sua publicação para atender às expectativas do mercado.

André Carvalhal levou a discussão para as redes sociais, onde até o lazer pode se transformar em obrigação. “Na era das redes sociais, tudo que é bom tem potencial de virar ruim”, observou. O escritor citou práticas como ioga, meditação e alimentação saudável, frequentemente convertidas em demonstrações públicas de desempenho. Lembrou também dos cadernos de colorir, que ganharam popularidade como alternativa às telas, mas acabaram virando conteúdo para as próprias plataformas digitais. “Aquilo que era pra desconectar virou performance na rede social”, resumiu. A contradição, segundo ele, também alcança a literatura. “A gente tem BookTok, que é a hashtag do TikTok de livros, com números gigantescos, pessoas postando e falando cada vez mais sobre livros e o número de leitores diminuindo. E aí, como é que você explica isso?”, questionou, ao levantar a discussão sobre a chamada leitura performática, quando mostrar que se lê pode ganhar mais importância do que a própria experiência de leitura.

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A conversa ganhou um tom descontraído quando Breno Fernandes pediu que os escritores revelassem como utilizam a inteligência artificial longe dos discursos públicos. “O que é que vocês fazem com a inteligência artificial, entre quatro paredes, quando ninguém está vendo?”, provocou. Carvalhal contou que utiliza a tecnologia para criar imagens, divulgar seus livros e realizar tarefas como revisão, transcrição e tradução. Mas estabeleceu um limite quando o assunto é literatura. “A parte de texto é o que eu amo fazer. Então, não teria o menor sentido eu entregar isso para a inteligência artificial fazer”, esclareceu. O escritor explicou que passou a última década reorganizando a própria vida para dedicar mais tempo à escrita. Por isso, prefere recorrer à tecnologia nas atividades operacionais e preservar para si o trabalho de criação.

Sandra Liss também revelou que utiliza inteligência artificial, mas fora da literatura. Além de escritora, ela desenha e confecciona roupas e recorre à tecnologia para apresentar suas peças em modelos com diferentes características físicas. “Eu precisava de outros modelos, outros corpos. Pego minha peça de roupa e peço para a IA criar um modelo utilizando aquela roupa”, relatou. Na produção de textos, entretanto, mantém uma posição diferente. “Não utilizo nenhum tipo de recurso, a não ser eu mesma com a caneta, eu mesma com o computador”, declarou. Para Sandra, escrever não é simplesmente organizar palavras ou transformar uma experiência em narrativa. “A imaginação é tão humana quanto a respiração”. Ao citar Guimarães Rosa, defendeu que a força de uma obra literária também está na maneira singular como seu autor trabalha a linguagem. “Não tinha como a IA escrever como Guimarães Rosa”, disse, antes de questionar “Cadê a originalidade?”.

Carvalhal acrescentou outra perspectiva à discussão ao distinguir originalidade de autenticidade. Para ele, uma criação pode parecer original simplesmente porque o público desconhece suas referências. A autenticidade, por sua vez, está relacionada à identidade, às experiências e às memórias de cada pessoa. “A autenticidade vem da nossa identidade”, destacou. O escritor reconheceu que a inteligência artificial já faz parte da vida cotidiana e tende a se tornar cada vez mais presente, inclusive em equipamentos domésticos e tarefas que passam despercebidas. Citou como exemplo as geladeiras inteligentes, capazes de identificar hábitos de uso e ajustar seu funcionamento. “A gente não vai ter como escapar disso. Agora, a gente não pode, nesse processo, deixar a gente escapar”, alertou.

A 14ª edição da FLICA é uma realização do Ministério da Cultura através da Lei Federal de Incentivo à Cultura – Lei Rouanet, com o Patrocínio da Petrobras, apoio da EMBASA, SEBRAE, Prefeitura Municipal de Cachoeira, Governo do Estado, Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA) e Secretaria da Fazenda (Sefaz). É contemplado também pelo Projeto Bahia Literária, iniciativa da Fundação Pedro Calmon (FPC), unidade vinculada da SecultBA, e da Secretaria Estadual de Educação (SEC). A produção é da Schommer Produções.

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