Estudantes do interior da Bahia transformam óleo de licuri em biodiesel e levam projeto para eventos internacionais
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Estudantes do interior da Bahia transformam óleo de licuri em biodiesel e levam projeto para eventos internacionais

Estudantes do interior da Bahia transformam óleo de licuri em biodiesel e levam projeto para eventos internacionais Foto: Arquivo Pessoal

Resumo da notícia

  • Estudantes de uma escola pública de Santa Bárbara criaram o EcoLicuri, projeto que transforma óleo de licuri em biodiesel e também aproveita resíduos para produzir farinha e vasos.
  • O biodiesel foi produzido em pequena escala e apresentou resultados promissores, mas ainda está em fase experimental e precisa de novos testes para avaliar qualidade, desempenho, emissões e viabilidade comercial.
  • O projeto ganhou destaque em eventos científicos no Brasil e no exterior, incluindo uma apresentação na Espanha, e garantiu aos estudantes a oportunidade de levar a pesquisa a Londres em 2027.

O que antes era visto como um fruto abundante e, muitas vezes, desperdiçado em comunidades rurais de Santa Bárbara, no interior da Bahia, virou matéria-prima para um projeto de ciência desenvolvido por estudantes de uma escola pública. Um grupo de alunos do Colégio Estadual Professor Carlos Valadares criou um biodiesel a partir do óleo extraído da amêndoa do licuri, palmeira típica do semiárido baiano.

A pesquisa, batizada de EcoLicuri, nasceu da vontade de aproveitar melhor um recurso presente no território onde os estudantes vivem e de estudar uma alternativa aos combustíveis fósseis.

Participaram do projeto Adrian Mota, Andrei Ribeiro Maia, João Henrique Gomes de Lima e Kauan Mascarenhas, sob orientação dos professores Hevelynn Martins e Lamon Oliveira.

A ideia surgiu a partir da observação de uma situação comum na comunidade onde os estudantes moravam: o desperdício do fruto.

“A gente queria testar se o licuri que tinha disponível, que estava caindo aos pés das casas dos meninos, poderia ser utilizado para produzir um biocombustível”, explicou a professora Hevelynn Martins.

Para chegar ao biodiesel, os estudantes:

• precisaram extrair o óleo da amêndoa do licuri;

• depois, fizeram testes com diferentes reagentes e condições de produção até conseguir realizar a chamada transesterificação — processo químico que transforma o óleo vegetal em biodiesel.

Nem tudo deu certo de primeira

Segundo a professora, alguns dos testes tiveram resultados diferentes do esperado. Mas, ao invés de descartar o material, os estudantes aproveitaram o resultado para desenvolver outros produtos.
Em uma das tentativas, por exemplo, o produto acabou se transformando em uma espécie de sabonete de licuri.

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A equipe também utilizou resíduos do licuri para produzir farinha e aproveitou as cascas na fabricação de vasos.

Projeto começou sem laboratório

Um dos aspectos que mais chama atenção na história é que a pesquisa começou com estrutura bastante simples.

Na época, a escola ainda não tinha um laboratório. Os estudantes utilizaram materiais disponíveis e chegaram a recorrer a garrafas PET nos primeiros experimentos.

Com o avanço do projeto e a conquista de equipamentos, os processos foram ficando mais precisos e fáceis de realizar.

Para a professora, acompanhar a evolução dos alunos foi uma das partes mais marcantes da pesquisa.
“A gente brinca que só tinha um sonho. A gente foi lá e fez”, ressaltou.

Segundo ela, o projeto também ajudou a aproximar os estudantes da ciência e a mostrar que o semiárido pode ser espaço para pesquisa e inovação.

Biodiesel foi testado em pequena escala

Os estudantes conseguiram produzir o combustível em pequena escala e realizaram testes para avaliar características como densidade, viscosidade, acidez e inflamabilidade.

Segundo Adrian Mota, os resultados foram considerados promissores.

Em uma estimativa feita pela equipe, 50 litros de óleo de licuri podem render cerca de 40 litros de biocombustível. O grupo também calculou um custo aproximado de R$ 1,80 por litro durante os experimentos, realizados de forma manual e sem automação.

Apesar dos resultados, os próprios estudantes ressaltam que o produto ainda está em fase experimental e não pode ser considerado pronto para uso comercial.

“Não fizemos uma análise de ciclo de vida completa nem testes diretos de emissão de gases em motores. Por isso, ainda não temos uma porcentagem exata que mensure essa redução em relação ao diesel fóssil”, explicou Adrian.

Para uma possível produção em escala maior, ainda seriam necessários testes de estabilidade, qualidade, desempenho, funcionamento em motores e medição de emissões, além de análises ambientais e econômicas mais aprofundadas.

Alternativa para o semiárido

O principal diferencial apontado pelos estudantes está justamente na matéria-prima. O licuri é uma planta nativa e bastante presente no semiárido.

Para os jovens, utilizar um recurso do próprio território pode ajudar a criar novas oportunidades econômicas para comunidades que já trabalham com a palmeira.

“É mostrar que o semiárido também tem potencial para produzir ciência e inovação”, afirmou Adrian.

A professora Hevelynn acredita que o licuri pode ganhar ainda mais importância na economia regional.

“Ele converte uma palmeira nativa extremamente resistente à seca em um vetor de transição energética e de inclusão produtiva”, destacou.

Segundo a docente, uma produção maior dependeria de investimento, estrutura de laboratório, equipamentos e uma oferta mais ampla de licuri para garantir matéria-prima sem prejudicar a planta e o ambiente.

Tudo pode ser aproveitado

A pesquisa também chamou atenção pela possibilidade de aproveitar diferentes partes do licuri.

Além do óleo para o biodiesel, os estudantes estudaram o uso dos resíduos para produzir farinha, alimentos e vasos. A professora também cita a possibilidade de utilização da torta, que sobra depois da extração do óleo, para ração animal, e das cascas como fonte de energia.

Para evitar impactos ambientais, ela defende que uma eventual exploração comercial seja acompanhada de manejo sustentável. Isso inclui deixar parte dos frutos para a regeneração natural da palmeira e para a alimentação de animais que dependem do licuri, como a arara-azul-de-lear.

Da escola para o mundo

O projeto saiu de Santa Bárbara e chegou a diferentes eventos científicos no Brasil e no exterior.

Os estudantes apresentaram o EcoLicuri em encontros e feiras, passaram por cidades como Juazeiro do Norte, no Ceará, e Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, e participaram de uma mostra online no Peru.

Em junho deste ano, o grupo viajou para a Espanha para apresentar a pesquisa. O trabalho recebeu ainda uma premiação que garantiu aos estudantes a oportunidade de apresentá-lo novamente, em 2027, em Londres.

Para Adrian, as viagens e apresentações foram alguns dos momentos mais marcantes da trajetória. “O mais emocionante foi perceber que todo o esforço, os testes e as dificuldades que enfrentamos realmente estavam dando resultado”, celebrou o jovem.

E os estudantes, onde estão agora?

O projeto também deixou marcas na trajetória dos jovens pesquisadores.

Aos 19 anos, Adrian Mota está no terceiro semestre do curso de Geografia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Andrei Ribeiro Maia, também de 19 anos, está no segundo semestre do curso técnico de Manutenção Automotiva do Senai.

João Henrique Gomes de Lima, de 19 anos, cursa o terceiro semestre da mesma formação.

Para Hevelynn, acompanhar o caminho percorrido pelos estudantes é uma das maiores recompensas do projeto. “A ciência e a educação, o investimento na educação, podem transformar a vida dos nossos estudantes. Eu acredito muito nisso”.

E, para quem antes via o licuri apenas como um fruto comum do cotidiano, a pesquisa mudou completamente a forma de enxergar a planta. “A gente passou a enxergá-lo como uma alternativa de desenvolvimento econômico sustentável para o nosso território”, resumiu Adrian.

Com informações do g1 BA.

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