Filmes para um coração partido: um bom romance tem que ter final feliz?
Colunas Timbira Cine Clube

Filmes para um coração partido: um bom romance tem que ter final feliz?

Filmes para um coração partido: um bom romance tem que ter final feliz? Crédito: Divulgação

Por Fernando Souza*

A arte do cinema sempre foi uma poderosa ferramenta de escapismo, e não há gênero mais associado à ideia de felicidade e redenção do que o romance. Quem nunca se emocionou com um final arrebatador onde os protagonistas finalmente se encontram e vivem felizes para sempre? Mas, à medida que os tempos mudam, também mudam as histórias que contamos sobre o amor. A pergunta que surge, então, é: um bom romance precisa ter um final feliz, ou a verdadeira força de uma história de amor está na sua capacidade de mostrar a complexidade e até a dor dos relacionamentos?

O “final feliz” no cinema clássico

Se voltarmos aos grandes romances da história do cinema, como O Diário de uma Paixão ou Uma Linda Mulher, encontramos histórias que nos envolvem com a promessa de uma conclusão feliz e reconfortante. Esses filmes, repletos de obstáculos superados e encontros dramáticos, trazem uma sensação de que, no final, o amor vence tudo. A fórmula é simples: amor verdadeiro, sacrifícios e, claro, o beijo final que sela a felicidade eterna. Para muitas pessoas, essas histórias são o ideal romântico, uma representação de um amor imbatível e perfeito, um amor que transcende todos os problemas.

Porém, enquanto o “final feliz” se tornou um dos maiores clichês dos filmes de romance, a crescente mudança nas expectativas do público tem levado o cinema a explorar novos terrenos. Nem todos os relacionamentos, sabemos, são tão lineares ou tão facilmente resolvíveis. E é nesse ponto que filmes mais modernos começaram a desafiar o conceito tradicional de romance.

O amor na era contemporânea: realismo e complexidade

Nos últimos anos, uma série de filmes românticos tem mostrado que, às vezes, o final feliz não é apenas improvável, mas até desnecessário. Closer – Perto Demais (2004), dirigido por Mike Nichols, é um exemplo claro de como o cinema contemporâneo lida com a complexidade do amor. A história segue quatro personagens cujas relações amorosas são marcadas por traições, mentiras e desilusões. Em vez de apresentar um romance idealizado, Closer nos mostra a fragilidade e as falhas humanas, explorando como as pessoas lidam com as emoções, os desejos e os erros que fazem parte de qualquer relacionamento.

Já História de um Casamento (2019), de Noah Baumbach, traz outra abordagem radical. O filme narra o processo de divórcio de um casal que, apesar de seus conflitos e diferenças, ainda guarda um amor profundo um pelo outro. Não há vilões ou vilãs; há apenas duas pessoas tentando seguir suas vidas enquanto lidam com os desafios emocionais e burocráticos da separação. Ao contrário de outros filmes que tratam de divórcios, História de um Casamento não oferece uma resolução fácil ou reconciliação, mas sim uma representação honesta e dolorosa de como o amor pode ser, ao mesmo tempo, complexo e imperfeito.

Esses filmes, junto com outros como 500 Dias com Ela (2009) e La La Land (2016), sugerem que o amor não é uma narrativa unidimensional. Ao contrário, ele pode ser breve, passageiro, e muitas vezes, chega a um fim que não tem a satisfação de um “felizes para sempre”. Contudo, essa complexidade é justamente o que torna essas histórias ainda mais impactantes, pois refletem a realidade de que, na vida, os amores podem ser intensos e significativos, mas nem sempre terminam do jeito que gostaríamos.

Amor real ou idealizado?

O que esses filmes mais recentes nos dizem sobre o amor? Talvez a maior lição seja que não há uma única forma de vivê-lo. Em 500 Dias com Ela, a história de Tom e Summer é uma reflexão sobre expectativas versus realidade. Tom idealiza Summer, acreditando que ela é a mulher perfeita, mas, no fim, descobre que o amor não se trata de possessão ou de encontrar uma pessoa para completar sua vida. A ruptura, no entanto, é dolorosa, e ele precisa aprender a seguir em frente, o que é, por si só, uma grande mensagem sobre o que significa amar alguém — mesmo quando esse amor não termina com um grande final feliz.

La La Land segue uma linha similar. O filme nos apresenta a ideia de que, embora dois personagens possam estar profundamente apaixonados, às vezes a vida exige que tomemos decisões difíceis, como seguir nossos próprios sonhos, mesmo que isso signifique abrir mão de um grande amor. O final do filme, onde os protagonistas seguem caminhos diferentes, nos lembra que nem todos os romances são feitos para durar, mas ainda assim podem ser intensos, transformadores e cheios de beleza.

Em todos esses exemplos, o que se torna evidente é que o amor no cinema está se tornando cada vez mais complexo e menos idealizado. O conceito de “final feliz” está sendo desconstruído, e a verdadeira magia desses filmes está na forma como eles mostram o amor em todas as suas nuances: a felicidade, a dor, as escolhas difíceis e até a saudade.

O que faz um bom romance?

No fim das contas, um bom romance no cinema não precisa necessariamente ter um final feliz. O que torna um romance cinematográfico inesquecível é sua capacidade de refletir a verdade sobre os relacionamentos humanos. O amor, como qualquer outro aspecto da vida, é multifacetado e cheio de complexidades. Não se trata apenas da felicidade ou da união perfeita, mas da jornada emocional, das descobertas e, muitas vezes, dos erros que fazemos ao longo do caminho.

A grande questão não é se o final é feliz ou triste, mas sim se o filme nos toca de alguma forma, se nos faz refletir sobre o que significa amar, perder e seguir em frente.

Talvez seja essa a verdadeira beleza do romance no cinema: ele nos mostra que, independentemente de como termine, o amor sempre deixa marcas em nós.

Portanto, para aqueles que buscam consolo em um bom romance no cinema, vale a pena lembrar que nem todo amor precisa terminar em perfeição. Às vezes, o verdadeiro poder de uma história de amor está na sua capacidade de nos fazer sentir, nos fazer questionar e, mais importante, nos fazer ver o amor como ele realmente é —complexo, dolorido, e, por vezes, bonito de uma maneira que não se pode resumir em um final feliz.

Esse artigo explora como o conceito de romance no cinema tem evoluído, especialmente com a crescente popularidade de filmes que retratam a complexidade e a realidade dos relacionamentos. Além disso, reflete sobre a ideia de que um “bom romance” não precisa, necessariamente, ter um final feliz para ser impactante ou significativo.

Segue minha lista de romances que me marcaram e que sugiro que assistam porque trazem uma grande qualidade técnica, atuações marcantes e histórias interessantes, no meu caso me trouxeram as lagrimas ou a reflexões importantes sobre amor e partida:

1 – O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001)

2 – História de um casamento (2019)

3 – Closer – perto demais (2004)

4 – Ela (Her) (2014)

5 – Hoje eu quero voltar sozinho (2014)

6 – Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004)

7 – Antes do amanhecer (1995)

8 – Encontros e Desencontros (2003)

9 – Titanic: (1997)

10 – Diário de Uma Paixão: (2004)

11 – E o Vento Levou: (1939)

12 – Orgulho e Preconceito: (2005)

13 – La La Land: (2016)

14 – A Noiva-Cadáver: (2004)

15 – A Cinco Passos de Você: (2019)

16 – Amor, Sublime Amor (2021)

* Fernando Souza é Ator, Diretor, Dramaturgo e historiador formando na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Professor titular de teatro do Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA), Professor de História da rede privada de Feira de Santana, Diretor artístico do Grupo Recorte de Teatro e ator da Cia Cuca de Teatro e do Grupo Conto em Cena.

Uma resposta para “Filmes para um coração partido: um bom romance tem que ter final feliz?”

  1. FABIANO disse:

    👏👏👏

* Os comentários não representam a opinião do veículo de comunicação; a responsabilidade é do autor da mensagem.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


O período de verificação do reCAPTCHA expirou. Por favor, recarregue a página.

TNotícias - Notícias de Feira de Santana Ouça a Rádio
Departamento do Ouvinte Podcast
No ar
Programação