Mandioca: a raiz que nos lembra quem somos
Por Coluna Sabores & Saberes | 23/04/2026 18:31 e atualizado em 23/04/2026
Foto: Divulgação/Chermoula Cultura Culinária
Por Aline Chermoula*
Há alimentos que nutrem. Outros, que contam histórias. E há a mandioca — essa raiz silenciosa e poderosa que, há milênios, sustenta corpos, culturas e identidades. Celebrar o Dia Nacional da Mandioca é mais do que exaltar um ingrediente: é reverenciar um elo profundo entre terra, tempo e gente.
Domesticada por povos originários da América do Sul muito antes da chegada dos colonizadores, a mandioca (Manihot esculenta) é uma das mais antigas expressões de inteligência agrícola do continente. Estudos arqueobotânicos indicam seu cultivo há mais de 8 mil anos na região amazônica, o que a posiciona como uma das bases alimentares mais antigas do planeta. Não por acaso, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) reconhece a mandioca como uma das culturas mais importantes para a segurança alimentar global, especialmente em regiões tropicais. Reduzi-lá à números ou estatísticas seria um equívoco quase ofensivo. Ela é mais do que produtividade: é permanência.
No Brasil, sua presença atravessa séculos com uma versatilidade quase poética. Da farinha que acompanha o cotidiano ao beiju delicado que carrega memórias indígenas; da tapioca reinventada nas mesas urbanas à rusticidade do pirão servido com afeto — a mandioca se transforma sem nunca perder sua essência. É alimento que acolhe, que adapta, que resiste.
Há, também, um saber profundo em seu preparo. A distinção entre mandioca brava e mansa, o processo de retirada do ácido cianídrico, o domínio ancestral sobre o tempo e a técnica — tudo isso revela um conhecimento sofisticado, transmitido entre gerações. Comer mandioca é, em certo sentido, participar de um ritual antigo, onde ciência e tradição caminham juntas.
✅📲 AQUI A NOTÍCIA CHEGA PRIMEIRO: Seu novo portal de notícias de Feira de Santana e região! Entre no nosso grupo do WhatsApp e receba as principais notícias na palma da mão!
>> Siga o perfil oficial do T Notícias no Instagram para mais informações.
Em tempos de industrialização alimentar e desconexão com a origem do que se consome, a mandioca se impõe como símbolo de retorno. Ela cresce em solos difíceis, exige poucos insumos, resiste a climas adversos. É generosa. Alimenta comunidades inteiras com simplicidade e força. É, por definição, democrática.Mas talvez o que torne a mandioca verdadeiramente épica seja sua capacidade de permanecer invisível e, ainda assim, indispensável. Ela não reivindica protagonismo — mas sustenta o prato. Não se impõe — mas estrutura a cultura. É base, é raiz, é origem.
Chamá-la de sagrada não é exagero, é reconhecimento. Sagrada como tudo aquilo que mantém a vida. Num país que muitas vezes esquece de honrar o que tem de mais essencial, olhar para a mandioca é um gesto de reconexão. Com a terra, com a história, com o que realmente importa. Hoje, mais do que nunca, celebrar a mandioca é celebrar o Brasil em sua forma mais genuína: resiliente, diverso, profundo — e extraordinariamente fértil.
Bolo de Mandioca com Coco — um abraço em forma de comida
Há receitas que nascem da fome. Outras, do afeto. Esse bolo de mandioca pertence ao segundo grupo: é o tipo de preparo que perfuma a casa inteira e parece desacelerar o tempo, como se cada pedaço carregasse uma lembrança.
Ingredientes
• 1 kg de mandioca crua ralada (bem fina)
• 200 ml de leite de coco
• 1 xícara de açúcar (ou a gosto)
• 100 g de manteiga derretida
• 3 ovos
• 100 g de coco ralado
• 1 pitada de sal
Modo de preparo
Rale a mandioca com paciência — esse é o primeiro gesto de cuidado. Em uma tigela, misture todos os ingredientes até formar uma massa úmida e levemente densa. Não precisa de pressa: a mandioca pede tempo, como tudo que é verdadeiro.
Despeje em uma forma untada e leve ao forno pré-aquecido a 180 °C por cerca de 40 a 50 minutos, até dourar por cima e perfumar a cozinha inteira.
O segredo (que não está na receita)
Espere amornar antes de cortar. Sirva com café fresco, de preferência em silêncio ou em boa companhia. Esse bolo não combina com distração — ele pede presença.
Por que essa receita toca tanto?
A mandioca tem essa capacidade rara de ser simples e profunda ao mesmo tempo. Ela carrega o Brasil dentro dela — e, quando vira bolo, vira também um gesto de cuidado, de casa, de pertencimento.
* Aline Chermoula é chef de cozinha, pesquisadora e referência na culinária afrodiaspórica no Brasil. Seu trabalho valoriza ingredientes ancestrais, como o licuri e o dendê, conectando tradição e inovação gastronômica. Com uma abordagem afrocentrada, destaca a cozinha como expressão de identidade, memória e resistência.
Autora de um livro sobre o tema, Aline também compartilha seus conhecimentos em programas de TV e, agora, na coluna “Sabores e Saberes”, onde explora a riqueza da gastronomia afrodescendente.
Acompanhe nas redes sociais: Band FM, Jovem Pan FM e TransBrasil FM. Também estamos presentes no grupo do WhatsApp.