Ópera de Quarto consagra uma das mais fortes parcerias do teatro baiano com espetáculo potente
Por Coluna Depois do Aplauso | 13/08/2026 08:30 e atualizado em 12/08/2026
Foto: Divulgação
Por Fernando Souza*
No final de semana disputado entre o Dia dos Namorados e o jogo do Brasil na Copa do Mundo, estreou, para uma plateia quase cheia, o espetáculo Ópera de Quarto, no Teatro do CUCA, com direção do consagrado diretor itaberabense — feirense já de coração — Geovane Mascarenhas, tendo no elenco Jacy Queiroz, Dezzo Mota e Bruno Santana.
Geovane volta a dirigir Jacy Queiroz em um espetáculo adulto depois de décadas e oportuniza um encontro com o ator e cantor Dezzo Mota, em um retorno aos palcos feirenses depois de anos fora, além da presença de Bruno Santana, representando uma nova geração de atores e atrizes feirenses que despertam para o teatro profissional na cidade.
O espetáculo, inspirado na obra de Plínio Marcos e em seu clássico Navalha na Carne, gira em torno de Tereza (Jacy Queiroz), uma mulher que sofre diversas violências em meio a uma vida dividida entre o amor e a exploração de Miro (Dezzo Mota) e uma vida de “prazeres” temporários com clientes.
O cenário, simplista, mas eficiente e bonito, traz o quarto de Tereza, onde se vê uma penteadeira carregada de dor, lágrimas, batons gastos, espelho sujo e músicas que aliviam a penumbra de uma vida regada a dores físicas e prazeres efêmeros alheios. A janela do quarto, que nos remete aos cortiços típicos da década de 1970 em todo o país, traz a melancolia não do ar fresco, mas de uma vida podre que escorre pelas ruas de uma periferia ambientada por navalhas, carnes e cortes, que nem vemos, mas sentimos durante todo o espetáculo.
Nos sentimos naquele lugar mofado e úmido. Se tivéssemos a sonoplastia do guinchar de ratos, não seria estranho contorná-los nas cadeiras; acho que ali, no palco, eles estariam. A fumaça cênica, característica marcante da luz de Geovane, em alguns momentos atrapalha a visualização das coisas, mas busca ambientar uma luz bonita, criando um clima noturno o tempo todo, típico dessas moradias onde a beleza da luz do dia nunca parece chegar.
O espetáculo começa e termina com a luta de Tereza, tentando se defender e, ao mesmo tempo, se entender enquanto mulher que ama Miro e é amada por ele. Uma situação típica e atemporal, na qual milhões de mulheres ainda hoje se veem, quando estão em relações em que o homem exerce violência sob a pura “ideia de, em nome do amor”.
A dramaturgia, assinada por Mascarenhas, é sobre isso: sobre como Tereza finalmente percebe que seu amado não a ama. Ela precisa partir, ir embora de vez. A interpretação de Jacy Queiroz é forte e singela, pois vemos na personagem a quase “loucura” de amor, com frases repetitivas — “ele me ama, ele me ama, ele é bom” — misturadas a sons de choro, tentativas de saciar um desejo corporal e músicas que nos remetem a boleros e tangos da época, quando a única maneira de expressar algo tão covarde como a violência parecia ser a solução.
Os três atores cantam, e isso é um ponto forte do espetáculo. Questões técnicas ou marcações que não saem exatamente como programado — um cordão de ouro insistente pendurado no microfone ou um dinheiro que caiu na marca errada — não afetam a maneira como os atores trazem um tom de musical de época, e da época, de forma belíssima.
Aqui, a presença do músico e compositor Deco Simões, que assina a trilha e demonstra compreender a voz de cada ator e atriz, conduz-nos para um conforto cênico que faz toda a diferença. Não à toa, as cenas musicais de Dezzo (Miro) com Tereza e Peitinho, vivido por Bruno Santana, são pontos altos do espetáculo.
O Miro de Dezzo Mota traz um physique que nos remete ao universo pliniano com muita facilidade, além de carregar a experiência de cantor de carreira. Voltar aos palcos nunca é fácil, mas tudo aquilo que nos permite retornar de maneira confortável ajuda.
Com a calça colada, sua camisa de botão semiaberta — ou mesmo sem ela —, peito aberto para o público, cabelo nevado, bigode fino e ouro no pescoço, Miro é um canalha, um cafetão típico de qualquer cidade brasileira onde se estabelece a dicotomia entre o amor e a obediência, o prazer e a violência.
Sua força se estende de Tereza a Peitinho, que não sabemos até onde deseja o algoz da amiga ou quer tirá-lo das vidas de ambos. Geovane, assim como Plínio Marcos, deixa essa contradição de forma mais singela, porém pontual.
Bruno Santana traz uma leveza com seu Peitinho — excelente escolha de nome, haja vista a referência ao uso de silicones não recomendados na época — e traz os momentos cômicos da peça, sem deixar de evidenciar aqueles que eram mais invisíveis que a própria Tereza.
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Os menos “desejados” eram os gays, as lésbicas e as travestis — usando a linguagem da década de 1970. Era um mundo muito mais cruel para eles do que para uma mulher prostituta, apesar de parecer difícil pensar assim. Mais para o final do espetáculo, surge nessa figura a força e o apoio de que Tereza precisava para salvar um dinheiro guardado e buscar uma nova vida.
A luta corporal entre Peitinho e Miro não tem uma marcação tão espaçosa e vistosa, mas é um ponto alto que nos aproxima de uma catarse esperada pelo público. Podemos dizer facilmente que tanto Dezzo quanto Bruno seriam — e são, teoricamente — os coadjuvantes da peça, mas a presença cênica de ambos marca e acontece.
Os protagonistas do espetáculo se conhecem há 30 anos, e a peça é um presente para ambos. Geovane Mascarenhas, que é um dos grandes diretores da Bahia e do Nordeste, presenteia a cidade com sua capacidade incrível de misturar música e dramaturgia. Penso que seu último excelente resultado nos palcos foi O Velho Lobo do Mar, em 2022. Ele, agora, entrega à sua cidade de escolha — Feira de Santana — mais um espetáculo digno de sua criatividade vivaz e constante.
Apesar de tudo isso que foi dito, o espetáculo é de Tereza ou de Jacy Queiroz. Sua Tereza nos comove, ensina e impressiona por uma força e coragem que, seja da atriz ou da personagem, dá quase no mesmo. Ficamos olhando para ela e desejando sua libertação. A coragem da atriz, que, assim como a personagem, é 40+, sofre com as atenuantes do etarismo que circula entre atores e atrizes o tempo todo, sobretudo entre as mulheres, vítimas de implacáveis preconceitos. Está ali inteira, para se entregar à sua maneira.
A cena de sedução de Tereza para Miro traz um corpo real de uma mulher real que, depois de anos emprestando seu corpo a personagens infantis e masculinos, se vê inteira como Tereza, despindo seu corpo para um público adulto e para uma cena de corpos adultos tão típica do universo Plíniano.
A cena nos deixa embriagados por um tesão singelo, aparentemente calmo, mas vivido por uma mulher que tem domínio sobre seu corpo e sua vida. Tereza, ali, nos mostra mais do que uma lingerie vermelha e curvas. Mostra uma mulher se despedindo de anos de uma violência trágica que precisava acabar.
O espetáculo acaba, talvez, no meu lugar preferido do cenário: na penteadeira. Onde todas as Terezas já estiveram e vivenciaram dores, amores, mortes e ressurgimentos. (4 estrelas)
O espetáculo estará em cartaz no teatro do CUCA nos próximos dias 14 e 15 de agosto, as 20h00 dentro do projeto Feira Teatro. Facilmente você adquiriu seu ingresso pelo Sympla.
* Fernando Souza é Crítico de Teatro e Cinema, além de Ator, Diretor, Dramaturgo e Historiador formado na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Professor titular de teatro do Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA), Professor de História da rede privada de Feira de Santana, Diretor artístico do Grupo Recorte de Teatro e ator da Cia Cuca de Teatro e do Grupo Conto em Cena.
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