Ópera de Quarto consagra uma das mais fortes parcerias do teatro baiano com espetáculo potente
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Ópera de Quarto consagra uma das mais fortes parcerias do teatro baiano com espetáculo potente

Ópera de Quarto consagra uma das mais fortes parcerias do teatro baiano com espetáculo potente Foto: Divulgação

Por Fernando Souza*

No final de semana disputado entre o Dia dos Namorados e o jogo do Brasil na Copa do Mundo, estreou, para uma plateia quase cheia, o espetáculo Ópera de Quarto, no Teatro do CUCA, com direção do consagrado diretor itaberabense — feirense já de coração — Geovane Mascarenhas, tendo no elenco Jacy Queiroz, Dezzo Mota e Bruno Santana.

Geovane volta a dirigir Jacy Queiroz em um espetáculo adulto depois de décadas e oportuniza um encontro com o ator e cantor Dezzo Mota, em um retorno aos palcos feirenses depois de anos fora, além da presença de Bruno Santana, representando uma nova geração de atores e atrizes feirenses que despertam para o teatro profissional na cidade.

O espetáculo, inspirado na obra de Plínio Marcos e em seu clássico Navalha na Carne, gira em torno de Tereza (Jacy Queiroz), uma mulher que sofre diversas violências em meio a uma vida dividida entre o amor e a exploração de Miro (Dezzo Mota) e uma vida de “prazeres” temporários com clientes.

O cenário, simplista, mas eficiente e bonito, traz o quarto de Tereza, onde se vê uma penteadeira carregada de dor, lágrimas, batons gastos, espelho sujo e músicas que aliviam a penumbra de uma vida regada a dores físicas e prazeres efêmeros alheios. A janela do quarto, que nos remete aos cortiços típicos da década de 1970 em todo o país, traz a melancolia não do ar fresco, mas de uma vida podre que escorre pelas ruas de uma periferia ambientada por navalhas, carnes e cortes, que nem vemos, mas sentimos durante todo o espetáculo.

Nos sentimos naquele lugar mofado e úmido. Se tivéssemos a sonoplastia do guinchar de ratos, não seria estranho contorná-los nas cadeiras; acho que ali, no palco, eles estariam. A fumaça cênica, característica marcante da luz de Geovane, em alguns momentos atrapalha a visualização das coisas, mas busca ambientar uma luz bonita, criando um clima noturno o tempo todo, típico dessas moradias onde a beleza da luz do dia nunca parece chegar.

O espetáculo começa e termina com a luta de Tereza, tentando se defender e, ao mesmo tempo, se entender enquanto mulher que ama Miro e é amada por ele. Uma situação típica e atemporal, na qual milhões de mulheres ainda hoje se veem, quando estão em relações em que o homem exerce violência sob a pura “ideia de, em nome do amor”.

A dramaturgia, assinada por Mascarenhas, é sobre isso: sobre como Tereza finalmente percebe que seu amado não a ama. Ela precisa partir, ir embora de vez. A interpretação de Jacy Queiroz é forte e singela, pois vemos na personagem a quase “loucura” de amor, com frases repetitivas — “ele me ama, ele me ama, ele é bom” — misturadas a sons de choro, tentativas de saciar um desejo corporal e músicas que nos remetem a boleros e tangos da época, quando a única maneira de expressar algo tão covarde como a violência parecia ser a solução.

Os três atores cantam, e isso é um ponto forte do espetáculo. Questões técnicas ou marcações que não saem exatamente como programado — um cordão de ouro insistente pendurado no microfone ou um dinheiro que caiu na marca errada — não afetam a maneira como os atores trazem um tom de musical de época, e da época, de forma belíssima.

Aqui, a presença do músico e compositor Deco Simões, que assina a trilha e demonstra compreender a voz de cada ator e atriz, conduz-nos para um conforto cênico que faz toda a diferença. Não à toa, as cenas musicais de Dezzo (Miro) com Tereza e Peitinho, vivido por Bruno Santana, são pontos altos do espetáculo.

O Miro de Dezzo Mota traz um physique que nos remete ao universo pliniano com muita facilidade, além de carregar a experiência de cantor de carreira. Voltar aos palcos nunca é fácil, mas tudo aquilo que nos permite retornar de maneira confortável ajuda.

Com a calça colada, sua camisa de botão semiaberta — ou mesmo sem ela —, peito aberto para o público, cabelo nevado, bigode fino e ouro no pescoço, Miro é um canalha, um cafetão típico de qualquer cidade brasileira onde se estabelece a dicotomia entre o amor e a obediência, o prazer e a violência.

Sua força se estende de Tereza a Peitinho, que não sabemos até onde deseja o algoz da amiga ou quer tirá-lo das vidas de ambos. Geovane, assim como Plínio Marcos, deixa essa contradição de forma mais singela, porém pontual.

Bruno Santana traz uma leveza com seu Peitinho — excelente escolha de nome, haja vista a referência ao uso de silicones não recomendados na época — e traz os momentos cômicos da peça, sem deixar de evidenciar aqueles que eram mais invisíveis que a própria Tereza.

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Os menos “desejados” eram os gays, as lésbicas e as travestis — usando a linguagem da década de 1970. Era um mundo muito mais cruel para eles do que para uma mulher prostituta, apesar de parecer difícil pensar assim. Mais para o final do espetáculo, surge nessa figura a força e o apoio de que Tereza precisava para salvar um dinheiro guardado e buscar uma nova vida.

A luta corporal entre Peitinho e Miro não tem uma marcação tão espaçosa e vistosa, mas é um ponto alto que nos aproxima de uma catarse esperada pelo público. Podemos dizer facilmente que tanto Dezzo quanto Bruno seriam — e são, teoricamente — os coadjuvantes da peça, mas a presença cênica de ambos marca e acontece.

Os protagonistas do espetáculo se conhecem há 30 anos, e a peça é um presente para ambos. Geovane Mascarenhas, que é um dos grandes diretores da Bahia e do Nordeste, presenteia a cidade com sua capacidade incrível de misturar música e dramaturgia. Penso que seu último excelente resultado nos palcos foi O Velho Lobo do Mar, em 2022. Ele, agora, entrega à sua cidade de escolha — Feira de Santana — mais um espetáculo digno de sua criatividade vivaz e constante.

Apesar de tudo isso que foi dito, o espetáculo é de Tereza ou de Jacy Queiroz. Sua Tereza nos comove, ensina e impressiona por uma força e coragem que, seja da atriz ou da personagem, dá quase no mesmo. Ficamos olhando para ela e desejando sua libertação. A coragem da atriz, que, assim como a personagem, é 40+, sofre com as atenuantes do etarismo que circula entre atores e atrizes o tempo todo, sobretudo entre as mulheres, vítimas de implacáveis preconceitos. Está ali inteira, para se entregar à sua maneira.

A cena de sedução de Tereza para Miro traz um corpo real de uma mulher real que, depois de anos emprestando seu corpo a personagens infantis e masculinos, se vê inteira como Tereza, despindo seu corpo para um público adulto e para uma cena de corpos adultos tão típica do universo Plíniano.

A cena nos deixa embriagados por um tesão singelo, aparentemente calmo, mas vivido por uma mulher que tem domínio sobre seu corpo e sua vida. Tereza, ali, nos mostra mais do que uma lingerie vermelha e curvas. Mostra uma mulher se despedindo de anos de uma violência trágica que precisava acabar.

O espetáculo acaba, talvez, no meu lugar preferido do cenário: na penteadeira. Onde todas as Terezas já estiveram e vivenciaram dores, amores, mortes e ressurgimentos. (4 estrelas)

O espetáculo estará em cartaz no teatro do CUCA nos próximos dias 14 e 15 de agosto, as 20h00 dentro do projeto Feira Teatro. Facilmente você adquiriu seu ingresso pelo Sympla.

* Fernando Souza é Crítico de Teatro e Cinema, além de Ator, Diretor, Dramaturgo e Historiador formado na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Professor titular de teatro do Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA), Professor de História da rede privada de Feira de Santana, Diretor artístico do Grupo Recorte de Teatro e ator da Cia Cuca de Teatro e do Grupo Conto em Cena.

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