Perspectivas da economia brasileira: entre o alívio dos números e o peso da realidade
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Perspectivas da economia brasileira: entre o alívio dos números e o peso da realidade

Perspectivas da economia brasileira: entre o alívio dos números e o peso da realidade Foto: Daniel Mafra/cancaonova.com

Por Rosevaldo Ferreira*

A divulgação do IPCA-15 de dezembro, que fechou a inflação de 2025 em 4,41%, dentro do limite superior da meta, gerou um sentimento de alívio nos mercados produtivos e parte da mídia. A narrativa dominante celebra um “pouso suave” da economia, com a inflação controlada pelo Banco Central e o auxílio externo e já quase eterno do “efeito China”. No entanto, uma análise que parte de um viés mais acurado, colocando no centro a qualidade de vida da classe trabalhadora, a distribuição de renda e a soberania nacional, enxerga por trás desses números uma realidade mais complexa e preocupante. As perspectivas para a economia brasileira, longe de serem otimistas, apontam para a permanência de graves contradições.

O fato de a inflação ter fechado em 4,41% é, de fato, importante. A alta de preços, especialmente dos alimentos e da energia, é um imposto cruel sobre os mais pobres, pesa bastante o medo de ficar dinheiro para comprar comida, bem como não ter energia em casa. No entanto, é fundamental perguntar: qual foi o custo social dessa conquista?

A política que levou a esse resultado foi, em grande parte, a de juros altos por um período prolongado, conduzida pelo Banco Central. Essa é uma ferramenta clássica e recessiva: ao encarecer o crédito, desestimula o consumo e os investimentos, esfriando a economia para conter a pressão sobre os preços. O resultado, muitas vezes invisível nas manchetes, é o desemprego e a informalidade, a falência de pequenos negócios, pouco destaque se deu ao fechamento dos empreendimentos que nasceram na pandemia, e o congelamento de investimentos públicos essenciais em saúde, educação e infraestrutura. Celebrar a meta de inflação sem questionar o caminho até ela é ignorar o sofrimento social gerado como efeito colateral. A nossa perspectiva defende que o combate à inflação deve passar pelo controle direto de preços de itens essenciais (como energia e combustíveis), pelo fortalecimento de estoques reguladores de alimentos e por uma política de renda que não sacrifique o emprego.

A análise do Valor Econômico sobre o “efeito China”, a importação de inflação baixa via produtos manufaturados baratos, revela uma faceta perigosa da nossa inserção internacional. Em vez de ser um motivo de comemoração, esse fenômeno escancara a desindustrialização crônica e a reprimarização da economia brasileira. Nosso fazendão exportador vira cada vez mais latifúndio. Depender da China para conter preços é sinal de fragilidade, não de força. Significa que nossa indústria nacional não é capaz de produzir bens com valor agregado a preços competitivos, seja por deficiências tecnológicas, seja por uma carga tributária caótica e por juros históricos que asfixiam o investimento produtivo de longo prazo. Enquanto exportamos commodities (minério, soja) e importamos manufaturados, permanecemos no lugar subalterno da divisão internacional do trabalho. A perspectiva de esquerda defende um projeto nacional de reindustrialização, com planejamento estatal, crédito direcionado e políticas de ciência e tecnologia que reduzam essa vulnerabilidade e gerem empregos de qualidade. O governo federal, apesar de se identificar de esquerda, está passando longe do problema.

Ao olhar para os itens que mais pressionaram o IPCA em 2025, fica claro que a inflação atual não é um fenômeno “generalizado”, mas concentrado em setores com grandes poderes de mercado.

A altíssima inflação na conta de luz (11,95%), é fruto direto do modelo de privatizações e concessões. As tarifas são reajustadas com base em contratos que garantem lucros altíssimos às concessionárias, independentemente da eficiência do serviço. É uma inflação administrada por oligopólios, transferindo renda da população para acionistas.

Outro setor, as passagens aéreas aumentaram 12,71% em dezembro, altamente concentrado, onde a lei da oferta e demanda é distorcida pelo poder das grandes companhias, especialmente em rotas e períodos de alta demanda. É a inflação da especulação.  Apesar da queda pontual de alguns itens, a alta na carne e nas frutas evidencia o poder dos grandes frigoríficos e atacadistas na formação de preços, em uma cadeia onde o pequeno produtor é espremido. Frutas chegam ao final do ao em queda, mas a carne ensaia um voo par ao alto. Portanto, a inflação brasileira tem um forte componente de inflação de lucros e de setores oligopolizados. A solução, nesta visão, não está apenas na taxa de juros, mas na regulação forte desses setores, na revisão dos contratos de concessões privatizadas e no fortalecimento de empresas estatais que atuem como âncoras de preços, como a Petrobras.

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As perspectivas para 2026, sob a lógica econômica atualmente hegemônica, são de continuísmo: a busca pela inflação no centro da meta (3%) a qualquer custo social, a manutenção de uma política comercial passiva e a hesitação em investimentos públicos transformadores. Uma perspectiva traça um caminho diametralmente oposto, com base nos seguintes pilares:

Mudança no Centro da Política Econômica: Trocar o eixo da política de juros altos para uma política de investimento público massivo em infraestrutura social (saneamento, habitação, transporte público) e energética (transição para renováveis). Isso geraria empregos, aumentaria a produtividade e atacaria gargalos inflacionários de longo prazo.

Reforma Tributária Progressiva: Acabar com o caráter regressivo do sistema, que onera mais o consumo do pobre, e taxar grandes fortunas e lucros extraordinários para financiar as políticas sociais.

Fortalecimento do Mercado Interno e da Soberania: Retomar políticas de valorização do salário mínimo (acima da inflação), ampliar programas de transferência de renda e promover uma reforma agrária que garanta alimentos baratos na mesa. Paralelamente, retomar o papel indutor do Estado no desenvolvimento científico e industrial.

Controle Social dos Setores Estratégicos: Reestatizar setores privatizados que se tornaram vetores de inflação (como partes do setor elétrico) e exercer controle rigoroso sobre preços de medicamentos, planos de saúde e combustíveis.

Pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre projetos de infraestrutura emblemáticos no passado indicam que cerca de 250.000 a 300.000 empregos são criados indiretamente e diretamente para cada R$ 10 bilhões investidos. Se um plano macro de 5 anos com um investimento anual de 2% do PIB em aproximadamente R$ 200 bilhões fosse implementado, ele poderia criar mais de 500.000 novos empregos formais apenas no primeiro ano e reduzir a taxa de desemprego geral em 3 a 4 pontos percentuais em três anos. De acordo com esses dados, o Brasil, no contexto de um relatório do Banco Mundial de 2023 sobre a América Latina, estima que o “efeito multiplicador do emprego” dos investimentos em infraestrutura no Brasil seja de cerca de 2,5, dos quais cada emprego direto cria aproximadamente 1,5 empregos indiretos, que estão principalmente ligados a materiais de construção, muitos deles em serviços comerciais e à logística (ou seja, a indústria). Mas isso seria em conjunto com um influxo de curto prazo de demanda importada. Sugere, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), que investimentos em larga escala poderiam aumentar as importações de bens de capital (máquinas e equipamentos) em 15% a 20% nos dois anos iniciais até que se espera que eles ocorram, adicionando pressão sobre o balanço de pagamentos.

A Agência Internacional de Energia (IEA), em sua Perspectiva Mundial de Energia 2023, estima que o investimento em estruturação de energia renovável, notadamente em usinas eólicas e solares, aumentará a participação de fontes renováveis na matriz elétrica do Brasil de aproximadamente 85% hoje para cerca de 90% até 2030, o que deve resultar em uma redução de 15% a 25% nos custos de energia para as indústrias, e proporcionar uma redução direta nos custos de produção doméstica. Em termos logísticos, em pesquisas anteriores, o Ministério dos Transportes afirmou que para cada redução de 10 pontos percentuais na proporção do transporte de carga rodoviário (migrando para ferrovias e hidrovias) o custo logístico do país poderia cair cerca de 6%. Se isso não for interrompido, e se políticas industriais direcionadas (como “parques industriais verdes” e regulamentações de conteúdo local) forem seguidas, então, de acordo com pesquisa divulgada pelo McKinsey Global Institut, o Brasil pode, entre agora e dentro de cinco a oito anos, diminuir a importância das importações no setor industrial (especialmente bens intermediários) em 5 a 8 pontos percentuais e, ao mesmo tempo, fazer com que a participação das exportações com maior valor agregado aumente cerca de 10 pontos percentuais.

A eficácia orçamentária dessa mudança depende de novas fontes de renda. Resultados de simulações compilados pela Receita Federal encontraram que um imposto sobre a riqueza (cerca de 2% de alíquota) sobre ativos pessoais acima de R$ 50 milhões poderia gerar entre R$ 40 bilhões e R$ 60 bilhões por ano. Mas a formalização e expansão da economia também aumentariam a base tributária. Mais fundamentalmente, os dados históricos do Banco Central sugerem que uma moderação estrutural na taxa básica de juros (Selic) de níveis altos (como 13,75%) para taxas que apoiem o crescimento (digamos 6% a 7%) de fato reduziria os pagamentos do Governo Federal sobre juros da dívida pública em 3 a 4 pontos percentuais do PIB. Isso se traduz em liberar mais de R$ 300 bilhões em espaço fiscal anualmente, o que está acima do custo médio anual do plano de investimento. Nesse sentido, é possível que, como resultado da integração de modelos de crescimento fornecidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma transformação impulsionada por investimentos produtivos como este deve fazer com que a taxa de crescimento econômico potencial do Brasil exceda os atuais aproximadamente 2% nos próximos 10 anos para mais de 3,5% ao ano.

Ufaaa, difícil isto acontecer com o grau de polarização que vai continuar tomando conta do cenário político brasileiro Feliz 2026.

* Rosevaldo Ferreira é economista, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), foi Diretor de Tributos da Prefeitura de Feira de Santana, Coordenador de Projetos do Sudic, Auditor Fiscal, Coordenador Regional da Agerba e Coordenador do Curso de Economia da UEFS.

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