Quando o fogão vira território de resistência
Por Coluna Sabores & Saberes | 11/03/2026 15:30 e atualizado em 11/03/2026
Foto: Leo Feltran/Editora Globo
Por Aline Chermoula*
Há cozinhas onde apenas se prepara comida.
E há cozinhas onde se preserva o mundo.
A cozinha afro-brasileira nasceu assim: como abrigo. Como linguagem secreta. Como forma de continuar existindo quando quase tudo havia sido arrancado.
Ao longo da história da diáspora africana, muitos dos saberes que chegaram ao Brasil não puderam permanecer na língua, no nome ou na religião pública. Mas permaneceram no gesto de cozinhar. Permaneceram na maneira de cortar um quiabo, de socar um pilão, de perfumar o azeite de dendê.
Cozinhar tornou-se, então, uma forma de memória.
O antropólogo Sidney Mintz, que dedicou sua vida a estudar comida e cultura no Atlântico, dizia que os hábitos alimentares carregam histórias profundas de poder, colonização e resistência. Aquilo que colocamos no prato raramente é apenas alimento — é também narrativa.
Nas cozinhas das mulheres negras do Brasil, essa narrativa sempre foi muito clara.
Durante séculos, elas cozinharam nas casas grandes, nas ruas, nos quintais, nos terreiros e nas feiras. Cozinharam para sustentar famílias, para celebrar orixás, para vender nas esquinas e para alimentar comunidades inteiras.
Mas também cozinharam para não esquecer.
A antropóloga Lélia Gonzalez lembrava que a cultura negra no Brasil se preservou justamente nos lugares considerados cotidianos demais para serem controlados: o corpo, a música, a fala e a comida.
A cozinha, portanto, nunca foi apenas um espaço doméstico.
Foi um território de permanência.
Quando uma panela de feijão é temperada com alho, cebola e louro, quando o inhame vira creme, quando o amendoim vira molho, estamos diante de técnicas que atravessaram oceanos. Saberes que sobreviveram ao tempo porque foram guardados na repetição amorosa do gesto.
É por isso que, para muitas de nós, cozinhar tem uma dimensão profundamente política.
Não política no sentido partidário, mas no sentido mais antigo da palavra: aquilo que organiza a vida coletiva.
Cada vez que uma receita afro-diaspórica é preparada com respeito à sua história, algo se reorganiza no mundo. Um elo se refaz entre passado e futuro.
E talvez seja por isso que certos aromas nos emocionam tanto.
O cheiro do dendê aquecendo na panela.
O vapor doce de um caldo de raízes.
O perfume terroso do inhame.
Eles carregam memórias que não aprendemos em livros, mas no corpo.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss escreveu que cozinhar é uma das formas mais sofisticadas de transformação cultural: é quando a natureza se torna cultura através do fogo.
Nas cozinhas da diáspora africana, essa transformação sempre foi também espiritual.
Porque cozinhar, para muitas tradições africanas e afro-brasileiras, é uma forma de cuidado. Um gesto de continuidade. Uma maneira de manter vivos aqueles que vieram antes de nós.
Talvez seja por isso que tantas receitas resistem ao tempo. Elas não são apenas fórmulas culinárias. São mapas afetivos.
Quando cozinho, penso frequentemente nas mulheres que vieram antes de mim. Nas mãos que descascaram raízes, lavaram folhas, moeram grãos e transformaram escassez em abundância.
Penso que cada prato que chega à mesa é também um agradecimento silencioso.
E é por isso que, para mim, cozinhar nunca foi apenas profissão.
É uma forma de escutar o passado.
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Receita
Creme ancestral de inhame com cacau e café
Este prato nasce do encontro de ingredientes profundamente ligados à história da diáspora africana. O inhame, raiz de força e nutrição presente em muitos territórios africanos; o cacau, fruto sagrado das Américas; e o café, que transformou a paisagem econômica e cultural do Brasil.
Juntos, criam um creme intenso, aveludado e reconfortante.
Ingredientes
500 g de inhame
1 cebola pequena
2 dentes de alho
1 colher de sopa de azeite de dendê ou azeite de oliva
1 colher de chá de cacau em pó 100%
80 ml de café forte recém-passado
500 ml de caldo de legumes
Sal a gosto
Pimenta-do-reino
Coentro ou cebolinha para finalizar
Amendoim torrado levemente triturado
Modo de preparo
Descasque os inhames e corte em cubos. Reserve em água para evitar que escureçam.
Em uma panela, aqueça o azeite de dendê ou de oliva. Refogue a cebola picada até ficar macia e perfumada. Acrescente o alho e mexa por alguns segundos.
Adicione os cubos de inhame e envolva bem no refogado. Despeje o caldo de legumes e cozinhe até que o inhame esteja completamente macio.
Transfira tudo para um liquidificador ou use um mixer na própria panela, batendo até formar um creme liso.
Volte o creme para a panela e acrescente o café e o cacau em pó. Misture bem. Ajuste o sal e finalize com pimenta-do-reino.
Sirva quente, com coentro ou cebolinha e um punhado de amendoim torrado por cima.
O resultado é um creme profundo, levemente terroso, com notas amargas e aromáticas , uma mistura que fala de território, travessia e encontro.
Talvez cozinhar seja isso.
Uma forma de reunir histórias na mesma panela.
E de lembrar, a cada colherada, que a resistência também pode ter sabor.
* Aline Chermoula é chef de cozinha, pesquisadora e referência na culinária afrodiaspórica no Brasil. Seu trabalho valoriza ingredientes ancestrais, como o licuri e o dendê, conectando tradição e inovação gastronômica. Com uma abordagem afrocentrada, destaca a cozinha como expressão de identidade, memória e resistência.
Autora de um livro sobre o tema, Aline também compartilha seus conhecimentos em programas de TV e, agora, na coluna “Sabores e Saberes”, onde explora a riqueza da gastronomia afrodescendente.
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