“Furaram” os olhos d’água de Santana e seu canto de dor ecoa mais que o do Assum Preto de Luiz Gonzaga
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“Furaram” os olhos d’água de Santana e seu canto de dor ecoa mais que o do Assum Preto de Luiz Gonzaga

“Furaram” os olhos d’água de Santana e seu canto de dor ecoa mais que o do Assum Preto de Luiz Gonzaga Crédito: Secom PMFS

Por Dandara Barreto*

Luiz Gonzaga, o eterno Rei do Baião, cantou a dor do “Assum Preto”, pássaro que, ao ter seus olhos furados, soltava seu canto de lamento. Na letra da canção, o que o Assum Preto não conseguia ver, era a paisagem do nordeste árido e cercado por suas belezas peculiares, também cantado em prosa e verso por Gonzagão.

Feira de Santana, cidade citada e visitada por ele, possuía exatamente este cenário e era privilegiada com um oásis. Em meio à terra seca e aos pés de palma e mandacaru, haviam olhos d’água por toda a parte.  Santana dos Olhos d’água – assim foi batizada a Princesa do Sertão em sua origem  –  o privilégio raro no semiárido se tornou apenas memória.

Fizeram da Princesa o Assum Preto da canção. Seus olhos d’água sequer existem mais e seu canto de dor ecoa na zona rural em tempos de estiagem e nas vias da cidade, em tempos de chuva.
Para abraçar o progresso, a cidade, que se tornou a segunda maior da Bahia, matou cada nascente. 

Se hoje a estiagem castiga os mais de 50 mil habitantes da sua imensa zona rural, há seis meses, as ruas estavam submersas após as fortes chuvas que, ao invés de alívio, trouxeram destruição. A cidade, com sua infraestrutura deficiente e a incompetência crônica do poder público, afundava em águas sujas e alagamentos.

Os problemas de drenagem, tão antigos quanto as reclamações da população, são resultado de uma má gestão, aliada a políticas permissivas com construções em áreas de preservação ambiental.

De forma desordenada e ilegal, a expansão da cidade avançou sobre áreas verdes e charcos, impermeabilizou o solo, que também sofre com a a falta de consciência e educação da população que insiste em socializar seu lixo, produzido individualmente.

A degradação não se limita aos alagamentos urbanos. Em diversos bairros, o saneamento básico ainda é um sonho distante, e o esgoto corre a céu aberto, com destino à lagoa ou rio mais próximos.
Há um tempo, as autoridades parecem ter botado a mão na consciência e decidiram investir milhões para revitalizar uma dessas lagoas:

A Lagoa Grande. Uma imensa e bonita faixa de água no meio de uma cidade cinza, repleta de fauna silvestre e adaptada para o turismo e prática de esportes.

Parece um pedacinho paraíso se eu não mencionar o quão fétida e poluída ela ainda é. É proibido pescar ali, mas não pelo perigo de ser abocanhado por um jacaré, a maior celebridade animal de todos tempos da Princesa do Sertão, e sim, pelo perigo de morrer intoxicado se alimentando do que vive num ambiente imundo. 

Situação de emergência 

Na última semana, a prefeitura publicou um decreto de emergência pedindo apoio à União para lidar com os problemas de todos os anos; a estiagem.

Segundo o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, desde o mês de julho, os apelos por socorro pela falta de chuva vem sendo feito ao município.  

O solo sente, a produção rural sente e os milhares de habitantes que vivem no campo sentem muito mais. Na pele e no estômago. A maior necessidade é por carros pipas, construção de reservatórios e cestas básicas.

Até março deste ano, a Secretaria de Agricultura do município não possuía um levantamento estatístico de quantas pessoas viviam do solo, em Feira Santana e não se sabe se agora há. O que se sabe sobre números, é dado do IBGE – Feira possui a maior população rural do estado. Sã0 cerca de 51 mil habitantes (8.3% da população do município), segundo o ultimo senso demográfico. 

Fazer políticas públicas sem saber para quem, é impossível e talvez responda ao porquê de não haver solução para um problema que existe há décadas.

A dualidade climática, que alterna entre enchentes e estiagens, é um reflexo claro da crise ambiental global. E enquanto a humanidade segue ignorando os sinais de alerta, cidades como Feira de Santana pagam um preço alto.

 

Dandara Barreto é feirense, mãe e Jornalista. Atua como coordenadora de jornalismo do Grupo Lomes de Comunicação e é âncora do Jornal da Manhã da Rádio Jovem Pan e do Programa Transnotícias, da rádio Transbrasil FM. 

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