Professor, ex-morador de Feira de Santana, fala sobre desafios da carreira universitária
Educação

Professor, ex-morador de Feira de Santana, fala sobre desafios da carreira universitária

Professor, ex-morador de Feira de Santana, fala sobre desafios da carreira universitária Foto: Divulgação

Resumo da notícia

  • Ariel Nonato, natural de Porto Alegre e ex-morador de Feira de Santana, iniciou sua carreira docente em 2011 e concluiu mestrado e doutorado na UFMA. Realizou estágios internacionais na Universidade da Coruña (Espanha) e no IFIMUP (Portugal), além de atuar no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS).
  • Desenvolve estudos em materiais termorreguladores para sistemas fotovoltaicos, integrando o programa europeu Talent4Iberia (2025–2027). Possui mais de 22 publicações internacionais e mantém colaborações científicas nacionais e internacionais de destaque.
  • Orientou dezenas de estudantes e coordenou o curso de Física do Centro de Ciências de Bacabal (2018–2025), elevando indicadores acadêmicos e conceito junto ao MEC. Destaca a pesquisa no interior do Maranhão como ato de resistência e transformação, unindo docência e pesquisa com propósito e dedicação.

O professor e pesquisador da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Ariel Nonato, tem construído uma trajetória acadêmica pautada na perseverança, na dedicação à pesquisa científica e no compromisso com a formação de novos profissionais da área de Física.

Natural de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, Ariel teve a oportunidade de percorrer o país, devido a carreira militar do pai e como todos os caminhos levam a Feira de Santana, a Princesa do Sertão também forjou a personalidade do professor universitário.

O docente iniciou a carreira em 2011, quando, durante o mestrado na Universidade Federal de Sergipe (UFS), foi aprovado em concurso público para o magistério estadual. Pouco depois, transferiu-se para o Programa de Pós-Graduação em Física da UFMA, onde concluiu o mestrado e o doutorado, consolidando atuação na área de Física Experimental da Matéria Condensada.

Durante sua formação, o pesquisador realizou estágios e colaborações internacionais de destaque, incluindo um doutorado sanduíche na Universidade da Coruña (Espanha) e pesquisas no Institute of Physics for Advanced Materials, Nanotechnology and Photonics (IFIMUP), em Portugal. Entre 2017 e 2019, atuou no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), aprofundando estudos sobre propriedades multiferróicas de materiais avançados.

Atualmente, desenvolve pesquisas voltadas ao desenvolvimento de materiais inovadores e sustentáveis, publicando em periódicos internacionais de alto impacto e colaborando com instituições de renome no Brasil e no exterior.

Em 2025, o professor foi aceito no Programa de Pós-Graduação em Física da UFMA como orientador e aprovado no competitivo programa europeu Talent4Iberia – Career Development of International Talents of the Energy Research Fields in the Iberian Peninsula, financiado pela União Europeia e pelo governo da Espanha. O projeto aprovado, intitulado “New Thermoregulatory Materials Based on Solid–Solid PCMs for Enhancing PV Systems”, será desenvolvido no Centro Ibérico de Investigação em Armazenamento de Energia (CIIAE), entre 2025 e 2027, e busca aprimorar a eficiência de sistemas fotovoltaicos a partir de novos materiais termorreguladores.

Ao longo de sua carreira, o docente tem se destacado pela produção científica consistente — com mais de 22 artigos publicados em periódicos internacionais —, pela orientação de dezenas de estudantes e pela contribuição à consolidação do curso de Física do Centro de Ciências de Bacabal, onde exerceu a coordenação entre 2018 e 2025. Sob sua gestão, o curso obteve elevação de conceito junto ao MEC e ampliou indicadores de ensino, pesquisa e extensão.

O professor ressalta que fazer ciência no interior maranhense exige esforço multiplicado, mas também representa uma oportunidade de transformação. “Produzir ciência fora dos grandes centros é um ato de resistência e de compromisso com o desenvolvimento regional. É possível fazer pesquisa de excelência, desde que haja articulação e vontade”, afirma Ariel Nonato.

Unindo docência e pesquisa, o professor define sua trajetória como um exercício contínuo de fé e propósito. “Ensinar é uma das formas mais belas de não desistir do futuro”, resume, citando versos de Milton Nascimento que traduzem o espírito de sua caminhada acadêmica: “É preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre.”

CONFIRA ENTREVISTA

Conte sobre sua trajetória acadêmica: como docente e como pesquisador

Não seria possível narrar minha trajetória acadêmica sem antes recordar o passado que serviu de ponte para que eu chegasse até aqui. Em 2011, encontrava-me cursando o mestrado em Física na Universidade Federal de Sergipe (UFS), prestes a concluir o primeiro ano, quando fui convocado para assumir um cargo efetivo no magistério público do Estado do Maranhão, conforme o Edital nº 001/2009, publicado no Diário Oficial do Estado nº 193, de 7 de outubro de 2009.

Naquele momento, entrei em contato com o então coordenador do Programa de Pós-Graduação em Física da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Prof. Dr. Manoel Messias Ferreira Júnior, para verificar a possibilidade de transferir meu curso de mestrado da UFS para a UFMA, de modo a conciliar a atividade docente na SEDUC-MA com a continuidade da pesquisa. Em uma conversa franca por telefone, o professor explicou que a transferência era possível, mas exigiria a realização de um novo processo seletivo. Talvez o que eu não imaginasse à época é que o exame do PPGF/UFMA fosse um dos mais exigentes do país — inclusive mais rigoroso do que o exame unificado nacional. Fiz a prova e fui aprovado, classificando-me em segundo lugar entre os cinco candidatos selecionados.

Durante o mestrado, tive a honra de ser orientado pelo Prof. Dr. Carlos William Paschoal, com quem iniciei minhas primeiras experiências na área de Física Experimental da Matéria Condensada. Em 2012, fui aprovado no processo seletivo do doutorado do mesmo programa. O Programa de Pós-Graduação em Física da UFMA é reconhecido nacionalmente por sua excelência acadêmica, ostentando conceito 5 na CAPES. Essa qualidade se reflete diretamente na inserção profissional de seus egressos: uma parcela significativa dos doutores formados tem alcançados posições em universidades federais e estaduais, institutos federais de educação, ciência e tecnologia, além de centros de pesquisa nacionais e internacionais.

No ano seguinte, após concluir o primeiro ano do doutorado, fui aprovado no concurso público para provimento de cargos da Carreira do Magistério Superior da UFMA, conforme Edital nº 161/2012-PROEN. Esse momento marcou de forma decisiva o início da minha trajetória acadêmica como docente do ensino superior.

Fui inicialmente lotado no Campus de Grajaú, na Coordenação de Ciências Naturais – Química, a aproximadamente 600 km da capital, São Luís. Essa fase foi de grande importância profissional e pessoal, pois ali construí laços fundamentais com colegas e gestores que contribuíram para minha formação como educador e pesquisador, entre eles: Profa. Dra. Sandra Maria Barros Alves, então diretora do Centro de Ciências de Grajaú, Profa. Dra. Janyeid Karla Castro Sousa, Prof. Samir Coutinho, entre outros amigos e parceiros acadêmicos.

Em 2014, tive o privilégio de ser contemplado com uma bolsa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE/CAPES), vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Física da UFMA. Essa experiência foi decisiva em minha formação, permitindo-me realizar parte da pesquisa doutoral na Universidade da Coruña (Espanha), sob a supervisão da Dra. María Antonia Señarís Rodríguez. Trabalhamos no estudo de propriedades multiferróicas em estruturas perovskitas quádruplas, e essa vivência não representou apenas um marco científico, mas também um divisor de águas na consolidação de colaborações internacionais duradouras, que permanecem ativas até os dias atuais.

Ao final de 2015, realizei um estágio de pesquisa no Institute of Physics for Advanced Materials, Nanotechnology and Photonics (IFIMUP) na cidade do Porto, sob a supervisão dos professores Dr. Joaquim Agostinho Moreira e Dr. Abílio Almeida, ambos referencias mundiais na área de materiais ferroelétricos, onde desenvolvi medições piroelétricas em compostos multiferróicos com estrutura perovskita quádrupla.

Com meu retorno ao Brasil, em 2016, fui removido para o Centro de Ciências de Bacabal (CCBA), onde atualmente exerço minhas atividades docentes e de pesquisa. Desde então, venho contribuindo de forma contínua para a formação de estudantes do curso de Física, tendo orientado 16 trabalhos de conclusão de curso (TCC), 6 projetos de iniciação científica e mais de 50 estudantes em programas de ensino e extensão, como o PIBID e a Residência Pedagógica da CAPES. Já participei de, pelo menos, 36 bancas de TCC, 2 de doutorado no exterior e 1 de doutorado no país. Publiquei mais de 22 artigos em periódicos internacionais indexados, incluindo trabalhos em revistas de alto fator de impacto, como no exemplo do meu recente trabalho intitulado “Strong Electron–Phonon Coupling and Lattice Dynamics in One-Dimensional [(CH3)3NH3]PbI3 Hybrid Perovskite”, publicado na Chemistry of Materials” (fator de impacto: 7.0). Estive envolvido na comissão organizadora e executora de diversos eventos promovidos pelo CCBA, tais como a, I Mostra Científica do Centro de Ciências de Bacabal, I Semana de Física, a Feira das Profissões, a SEMID e a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), entre outros. Além disso, sou revisor atualmente de mais de 10 periódicos internacionais indexados relevantes na área da Física da Matéria Condensada, podendo citar aqui, como exemplos, o Ceramics International, Molecules e Materials. Recentemente, fui certificado e convidado para fazer parte da Materials 2025 Exceptional Reviewers List, devido a excepcional qualidade das revisões realizadas por mim para Materials em 2025.

Entre 2017 a 2019, atuei no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), conduzindo estudos sobre diagramas de fase pressão–temperatura (P–T) em materiais multiferróicos. Desse período resultou uma série de publicações relevantes em periódicos de alto impacto internacional, derivadas das medições realizadas nas diferentes linhas experimentais do LNLS, consolidando importantes avanços na compreensão das transições estruturais e propriedades magnetoelétricas desses sistemas.

Em 2018, assumi a coordenação do curso de Física do CCBA, função que exerci com dedicação até janeiro de 2025, tendo sido eleito e reconduzido por duas gestões consecutivas. Durante esse período, implementamos ações estratégicas voltadas à melhoria dos nossos indicadores acadêmicos e de infraestrutura. Entre elas, destacam-se: a redução da evasão estudantil, o aumento do número de ingressantes, o fortalecimento do corpo docente por meio da contratação de doutores altamente qualificados, a reestruturação dos laboratórios didáticos, a reformulação do Projeto Pedagógico do Curso (PPC) e aumento da produção científica, além da ampliação das atividades de extensão.
Sob nossa gestão, o curso passou por avaliação do MEC e obteve elevação de conceito de 3 para 4, resultado que reflete o compromisso coletivo, o empenho do corpo docente e a consolidação de um ambiente acadêmico de qualidade.

Ao longo desses anos, minha trajetória como docente e pesquisador tem sido guiada por um princípio simples, mas essencial: resiliência, propósito e fé sem vitimismo.

Mas transformar exige mais do que saber — exige entrega, coragem e fé no que se faz. Como canta Milton Nascimento, na imortal “Maria, Maria”, “é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre”.

Esses versos traduzem a essência do caminho que percorri: um percurso repleto de desafios, mas também de descobertas e de uma vontade inquebrantável de fazer o melhor, mesmo quando as circunstâncias pareciam desfavoráveis.

Cada aula, cada orientação e cada pesquisa nasceram desse impulso de acreditar que o conhecimento é um ato de resistência — e que ensinar, no fundo, é uma das formas mais belas de não desistir do futuro.

Em 2018, aprovei, em parceria com o Prof. Dr. Rosivaldo Xavier, o projeto de cooperação internacional da FAPEMA (COOPI-07771/17), intitulado “Estudo de perovskitas híbridas orgânico-inorgânicas barocalóricas para aplicação em dispositivos refrigerantes”. Esse projeto possibilitou o meu retorno e o do Prof. Rosivaldo Xavier à Espanha, nos anos de 2018 e 2019, para o desenvolvimento de atividades no Centro Interdisciplinar de Química e Bioloxía (CICA). A pesquisa foi conduzida em uma área estratégica para a transição energética sustentável: o desenvolvimento de novos materiais para refrigeração sólida, com potencial de reduzir o uso de fluidos gasosos e promover tecnologias mais limpas e eficientes. Estas pesquisas deram origem a uma série de publicações em periódicos de alto impacto e fortaleceu ainda mais a cooperação com o grupo de pesquisa espanhol.

Em 2025, fui aceito para integrar o prestigiado Programa de Pós-Graduação em Física (PPGF) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Este aceite representa não apenas um marco significativo em minha trajetória acadêmica, mas também um importante reconhecimento à minha atuação como pesquisador.

O PPGF destaca-se pelo elevado nível de excelência e rigor científico, sendo composto por um seleto corpo docente, em sua maioria bolsistas de produtividade do CNPq. Minha admissão ao programa abre um novo horizonte de possibilidades de atuação como orientador de alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado, fortalecendo minha contribuição para a consolidação de linhas de pesquisa avançadas, para a produção de publicações de alto impacto e para o processo de internacionalização do programa.

Recentemente, fui aprovado no competitivo painel internacional do programa Talent4Iberia – Career Development of International Talents of the Energy Research Fields in the Iberian Peninsula, voltado à formação de líderes científicos na área de armazenamento de energia. A chamada reuniu 62 candidatos de 23 países, e entre os dez selecionados obtive a 4ª colocação, sendo o único brasileiro. O programa, financiado em partes iguais pela União Europeia (Horizon Europe – MSCA-COFUND) e pelo Governo Regional da Extremadura, garante aos bolsistas financiamento da pesquisa durante o período de execução do projeto. Meu projeto aprovado, intitulado “New Thermoregulatory Materials Based on Solid–Solid PCMs for Enhancing PV Systems”, será desenvolvido no Centro Ibérico de Investigação em Armazenamento de Energia (CIIAE), sob supervisão da Dr.ª Lilian Claudia Gómez Aguirre, entre novembro de 2025 e novembro de 2027.

A pesquisa tem caráter altamente estratégico, voltado ao desenvolvimento de novos materiais termorreguladores capazes de aumentar a eficiência de sistemas fotovoltaicos, e inclui estâncias de pesquisa em centros e indústrias colaboradoras, fortalecendo as redes internacionais de cooperação científica. Representando, uma oportunidade singular plenamente alinhada à Política de Internacionalização da UFMA e ao Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI).

Quais professores incentivam/incentivaram sua trajetória?

Quando cheguei do estado de Sergipe ao Maranhão, em meados de 2011, trazia comigo apenas o sonho de ingressar no mestrado. Lembro-me com clareza: não havia um centavo no bolso, apenas a esperança teimosa de quem decide tentar, mesmo sem garantias.

Naquela época, estávamos eu e o professor Rosivaldo, que lecionou Física no Campus de Codó e atualmente trabalha na UFRB. Foi o professor Dr. Carlos William quem nos recebeu na cidade. Ele não nos conhecia, não sabia de onde vínhamos (origens) nem o que poderíamos alcançar. Mesmo assim, fez a pergunta que mudaria aquele início de jornada:

— Vocês têm dinheiro para passar a semana aqui, estudar e fazer uma boa prova de seleção?

A resposta foi simples, quase constrangida: não.

O professor William, então, sem hesitar, custeou toda a nossa estadia durante aquele período — hospedagem, alimentação, tudo. Não por obrigação, mas por crença. Acreditou em dois jovens desconhecidos apenas porque viu neles a vontade de aprender, e isso bastou.

Esse gesto, singelo e profundo, nunca saiu da minha memória. Há pessoas que passam pela nossa vida como cometas: iluminam o instante e seguem adiante, deixando uma trilha de sentido. O professor William foi uma dessas pessoas — alguém que acreditou antes de ver, que enxergou potencial antes de resultado, que estendeu a mão sem saber se o caminho seria promissor.

São pessoas assim que inspiram. Elas não apenas ensinam física, química ou qualquer ciência — ensinam humanidade. Mostram que o verdadeiro papel do mestre não é apenas transmitir conhecimento, mas acender possibilidades. São essas pequenas grandes atitudes que nos lembram que a fé no outro é a forma mais bela de transformar o mundo.

Hoje, olhando para trás, percebo que aquele gesto não apenas me ajudou a prestar uma prova. Ele ajudou a escrever uma história. Uma história que começou com a generosidade de alguém que, mesmo sem saber, reacendeu a certeza de que a educação é, acima de tudo, um ato de esperança. O Prof. Carlos William me orientou no mestrado e doutorado e hoje seguimos colaborando.

Mas não poderia deixar de mencionar o Prof. Dr. Manoel Messias Ferreira Júnior, pessoa por quem nutro profunda admiração e gratidão. Ele representou, em muitos sentidos, a primeira porta que se abriu na minha trajetória acadêmica — não apenas por ser um pesquisador de excelência, mas por representar um exemplo de generosidade intelectual e compromisso com a ciência. Com ele aprendi que precisamos seguir trabalhando para o momento em que as oportunidades surgirem, que o nosso maior compromisso, acima de tudo, deve ser com uma educação pública, ética e de qualidade. Trabalhar com seriedade e afinco, buscando a excelência no ensino e na pesquisa, valorizando os recursos e condições de que dispomos, são ações que ele propaga.

– Como a docência e a pesquisa se relacionam?

Para mim, docência e pesquisa caminham juntas — como a dualidade entre partícula e onda. São expressões diferentes de uma mesma natureza: uma busca compreender, a outra compartilhar o que foi compreendido. Quando o professor pesquisa, ele traz para a sala de aula o movimento vivo da descoberta; e quando ensina, ele também se questiona, observa e aprende novamente.

No caso da Física, essa relação se torna ainda mais evidente. O físico é, por essência, alguém que busca entender os fenômenos naturais e ser capaz de modelá-los, transformando observações em conhecimento. Assim, ensinar Física é revisitar continuamente o próprio ato de investigar — a sala de aula se torna uma extensão do laboratório, e a pesquisa, uma forma ampliada de ensino.

Eu não consigo imaginar um docente universitário que não seja também um pesquisador — e isso deveria independer da área de atuação. Não faz sentido criar uma tensão entre docência e pesquisa, nem tentar desenraizar uma da outra. Ambas se complementam e se fortalecem mutuamente.

A prática docente deve inspirar os discentes a pensar como pesquisadores: a questionar, propor soluções, investigar e compreender o mundo de forma crítica. É esse tipo de abordagem que, na minha visão, traz completude à formação do aluno, tornando-o um indivíduo reflexivo, criativo e comprometido com a busca de respostas — seja para os grandes desafios da humanidade, para os problemas da sua cidade, ou mesmo para as questões do seu próprio cotidiano.

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Como você se encontrou na pesquisa? Qual o impacto desse campo na sua vida? Qual estudo impactou sua trajetória?

A resposta para essa pergunta poderia ser muitas, mas eu fico com a mais simples: a gente se encontra em algo quando descobre que, mesmo sendo cansativo, exigindo tempo e nem sempre trazendo o retorno financeiro desejado, aquilo não se torna um fardo. Quando fazemos o que gostamos, existe prazer no caminho — e foi exatamente assim que aconteceu comigo na pesquisa.

A área experimental, apresentada a mim ainda durante o doutorado, despertou um fascínio imediato. Percebi que podia criar, testar, observar e compreender fenômenos com as próprias mãos. Resolver problemas complexos é um desafio que cansa, mas também encanta — porque cada solução traz um misto de orgulho, realização e a sensação de estar contribuindo com algo maior. Isso, por si só, é o bastante.

A pesquisa também abriu portas para oportunidades únicas que mudaram o rumo da minha vida acadêmica. Em 2014, tive o privilégio de realizar um doutorado sanduíche na Universidade da Coruña (Espanha), com bolsa PDSE/CAPES, sob a supervisão da Dra. María Antonia Señarís Rodríguez, estudando propriedades multiferróicas em estruturas perovskitas quádruplas. Essa experiência foi um divisor de águas — científica e pessoalmente. Trabalhar em outro país, em um grupo de alto nível, mostrou-me que a ciência não conhece fronteiras e que o conhecimento é uma linguagem universal.

Depois disso, vieram outras oportunidades que ampliaram minha trajetória: a passagem pelo Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) entre 2017 e 2019, onde investiguei diagramas de fase pressão–temperatura (P–T) em materiais multiferroicos, e a cooperação internacional com o grupo UDCSolidos, na Espanha, entre 2018 e 2019, voltada ao desenvolvimento de materiais barocalóricos para refrigeração sólida.

Hoje, sigo acreditando que a pesquisa é quase um modo de vida, um exercício constante de curiosidade, esforço e colaboração. Graças a esse caminho, terei a oportunidade de integrar um grande projeto financiado pela União Europeia, por meio das Marie Skłodowska-Curie Actions, no programa Talent4Iberia, voltado à transição energética global sustentável nos anos de 2026 e 2027.

A pesquisa me ensinou que as oportunidades crescem na mesma medida em que cresce a dedicação e a qualidade do que se faz. E, no fim, é isso que permanece: a satisfação de estar onde o trabalho se confunde com o prazer de aprender, descobrir e contribuir.

Foto: Divulgação

Como é a experiência em produzir ciência no contexto do interior maranhense? Qual a relevância?

Essa é uma pergunta que precisa ser respondida com muita responsabilidade. A maioria de nós, quando é contratada para atuar como pesquisador no interior do Estado, no meu caso, no Campus de Bacabal da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), já conhece, ao menos em parte, a realidade desse contexto. É importante reconhecer que a infraestrutura dos campi do interior ainda é bastante diferente daquela disponível no campus-sede, em São Luís.

Portanto, respeitadas as especificidades de cada área, é possível afirmar que um professor atuante no interior despende, proporcionalmente, um esforço significativamente maior, eu diria até dez vezes superior, para alcançar a produção de um artigo, em comparação a um docente lotado na capital.

No entanto, isso não significa que seja impossível fazer Ciência no interior. O que é necessário, acima de tudo, é vontade, determinação e articulação. No meu caso, grande parte das pesquisas que desenvolvo se torna viável em virtude dessas colaborações científicas, tanto dentro da própria UFMA quanto em redes externas.

Mantenho colaborações ativas com professores da UFMA em São Luís, que dispõem de laboratórios e centrais multiusuários essenciais para a execução de experimentos, como os professores Dr. Clenilton Costa e Dr. Alan Menezes. Além disso, participo de parcerias nacionais consolidadas, como com grupos da Universidade Federal do Ceará (UFC), coordenados pelos professores Dr. Carlos William Paschoal e Dr. Alejandro Pedro Ayala, e com o prof. Rosivaldo Xavier, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). No âmbito internacional, a colaboração com o grupo UDCSolidos, da Espanha, tem sido fundamental para ampliar a visibilidade e o impacto das pesquisas desenvolvidas.

Essas parcerias demonstram que é plenamente possível produzir ciência de qualidade a partir do interior, desde que o pesquisador se articule em redes colaborativas e mantenha uma atuação proativa em busca de sinergias institucionais.

A relevância de fazer pesquisa no interior do Maranhão é imensa. Em primeiro lugar, está na formação de recursos humanos altamente qualificados em áreas de relevância global, mostrando que o conhecimento de fronteira pode e deve ser produzido em todas as regiões do Estado. Isso garante que qualquer aluno, esteja ele na capital ou no interior, tenha acesso à pesquisa de ponta, ampliando horizontes e oportunidades.

Além disso, a produção científica dos campi do interior aumenta a visibilidade da própria UFMA, fortalece a avaliação dos cursos, e amplia as chances de captação de recursos junto às agências de fomento, como FAPEMA, CNPq e CAPES.

O que é ser professor?

Essa é uma pergunta que me acompanha há muitos anos. Quando eu tinha 17 anos, comecei a dar aulas de reforço escolar — ensinava principalmente Matemática e Física, mas não hesitava em encarar também a Química. Desde então, passei por diferentes caminhos da docência: fui professor em escolas particulares, em cursinhos pré-vestibulares do governo, servidor efetivo da rede pública estadual do Maranhão e, hoje, sou professor associado da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Tenho muito orgulho dessa trajetória, construída com dedicação e amor. Sempre tive paixão pelo ensino, mesmo diante das dificuldades. Os contextos mudaram, os níveis de ensino se transformaram, mas a entrega permanece a mesma — a mesma de quando eu, aos 17 anos, explicava equações simples aos meus alunos do fundamental.

Ser professor, para mim, vai muito além das dimensões técnicas do saber. É um ato que toca o mais profundo da alma humana — aquele ponto em que ensinar se confunde com compartilhar, com dividir, com acreditar no outro. O verdadeiro professor não pode ser egoísta: ele precisa ser generoso no conhecimento, a ponto de permitir que aquilo que sabe deixe de ser apenas seu e passe a pertencer a todos.

Embora muitos digam “eu me formei nisso ou naquilo” e acreditem que isso seja suficiente para ensinar, a verdade é que dominar o conteúdo não basta. Não precisamos ser psicólogos, mas precisamos ser sensíveis às mudanças do tempo, às transformações das gerações e às novas formas de aprender. Ensinar exige acolhimento, empatia e respeito — sem distinções, sem rótulos — e a compreensão de que cada aluno carrega um universo próprio, que merece ser ouvido, valorizado e, sobretudo, impulsionado a alcançar o seu melhor. Ser professor é ser a ponte que se deixa pisar para que outros atravessem da ignorância ao conhecimento.

Como é o constante processo de formação?

A formação, para mim, não é um ponto de chegada, mas um movimento contínuo, um processo que se renova a cada aula, a cada pesquisa e a cada diálogo com estudantes e colegas. Desde o início da minha trajetória, sempre compreendi que ensinar é também uma forma de aprender, e que o professor precisa estar em permanente estado de escuta e de curiosidade.

Ao longo da minha carreira, esse processo se manifestou de diversas formas: na busca por parcerias científicas, na vivência em diferentes contextos de pesquisa, do interior do Maranhão ao cenário internacional, e na reflexão constante sobre o papel social da universidade. Estar em um campus do interior me ensinou, especialmente, que a formação se constrói no enfrentamento dos desafios com criatividade e cooperação, e que o conhecimento floresce quando compartilhado com propósito.

O constante processo de formação também envolve revisitar convicções, adaptar métodos e reconhecer que o saber é dinâmico. Cada projeto, cada orientação e cada troca com os alunos contribui para minha própria formação, tanto acadêmica quanto humana. Em essência, continuar se formando é permanecer inquieto, disposto a aprender, desaprender e reconstruir — porque, no fim, formar-se é um verbo que “nunca” se conjuga no passado.

Foto: Divulgação

Qual a importância da data “Dia dos professores”?

Confesso, sendo bem honesto, que por muito tempo não refletia profundamente sobre essa data. Até que um dia, durante a graduação em Licenciatura em Física pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), compartilhei com meu orientador, Prof. Dr. Antônio Vieira de Andrade Neto, o desejo de cursar também o Bacharelado em Física.

Naquela época, havia uma grande polarização entre os dois cursos — acreditava-se que, após o sexto período (ou até mesmo antes), um aluno da licenciatura não teria condições de seguir o bacharelado. Eu mesmo carregava essa dúvida e fui consultar meu orientador. Foi então que ele, quando questionado, com uma simplicidade que jamais esqueci, disse apenas: “Você pode fazer qualquer coisa.”

Aquela frase mudou tudo. Foi naquele instante que tomei a decisão de seguir em frente — e pude trilhar caminhos que jamais imaginei possíveis.

Por isso, o Dia dos Professores, para mim, representa uma homenagem a todos que foram inspiração, ponte e incentivo. Àqueles que, com uma palavra, um gesto ou um olhar, nos ensinam a não desistir. Aos que, em meio às incertezas, nos dizem o verso mais poderoso que um aluno pode ouvir: “Você pode fazer qualquer coisa.”

Por outro lado, pensar no Dia dos Professores não é apenas lembrar com gratidão dos mestres que marcaram nossas trajetórias. É, sobretudo, refletir sobre o árduo ofício de educar — um trabalho que exige dedicação, resiliência e compromisso ético diante de inúmeros desafios.

Mais do que uma data comemorativa, esse momento convida à consciência sobre as lutas históricas da categoria por melhores condições de trabalho, valorização profissional e reconhecimento social.

No entanto, também é preciso evitar os extremos. Não se trata de ignorar a complexidade da conjuntura política atual, mas de reconhecer que o investimento consistente na educação básica e superior precisam ser uma prioridade nacional. Sem condições adequadas de ensino, sem valorização salarial e sem políticas públicas eficazes, não há transformação social sustentável.

Celebrar o professor, portanto, é reafirmar a centralidade da educação como pilar de um país que deseja ser mais justo, crítico e humano.

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