Russo Passapusso e Rita Batista falam sobre memórias, música e pertencimento na FLICA 2025
Por Yasmin Mota | 24/10/2025 11:06 e atualizado em 24/10/2025
Foto: Diego Silva
Resumo da notícia
- Na abertura da Flica 2025, Russo Passapusso e Rita Batista transformaram a literatura em uma experiência viva, mostrando que ela também habita o corpo, a oralidade e a memória — muito além dos livros.
- Russo compartilhou lembranças do pai e da música “Flor de Plástico”, revelando como a oralidade e a dor se tornaram matéria poética; Rita destacou a leitura como herança familiar e a música como caminho de aprendizado sobre ancestralidade e identidade.
- Rita refletiu sobre o papel da mulher negra na mídia, afirmando que a palavra é escudo e instrumento de transformação, e defendeu a importância de inspirar novas gerações a ocuparem todos os espaços sociais e culturais.
Sob a tenda Paraguaçu, em Cachoeira, uma conversa soou como um canto ancestral feita de risos, lembranças e leituras que nasceram antes dos livros. Dois artistas da palavra transformaram a literatura em ritmo, memória e voz. Russo Passapusso e Rita Batista compartilharam, nesta quinta-feira (23.10), durante a abertura da Flica 2025, o que os livros não ensinam, mas a vida revela: que a literatura também mora no corpo, na memória e na forma de contar o que se vive.
Diante do público atento, com mediação do professor da Uneb, Marielson Carvalho, a mesa “Ler é Massa”, tema da 13ª edição da feira, tornou-se encontro, escuta e partilha. Numa sintonia fina regida por Marielson, eles foram costurando suas trajetórias como quem remonta um tecido de afetos e resistência.
Ao ser perguntado sobre sua relação com os livros, Russo lembrou do acidente do pai, ainda jovem, durante o trabalho e de como as vozes vieram antes dos livros. “Meu pai lia um livro quando tudo aconteceu. Esse livro que foi fechado, abriu uma grande história na minha mente. Meu pai, por enxergar, sabia que queríamos aprender. Então, pedia pra que lêssemos pra ele. Ele dizia que gostava da minha leitura porque ela dava outro corpo às palavras”.
Flor de plástico – O público acompanhava atento, como se assistisse a um diálogo entre duas memórias que se reconheciam. Russo, então, mergulhou em uma de suas lembranças mais marcantes, o dia em que perdeu o pai num acidente de trânsito. “Não fui ao enterro. Cheguei no quarto, vi as roupas dele e as vesti. Olhei pra trás e vi a cama, e estava lá o vaso, quebrado, com a mesa de plástico, de golfinho. Aí aconteceu alguma coisa na minha cabeça. Eu ouvi uma música: ‘Uma flor de plástico, não há terra nesse vaso, não há vaso nessa terra’. Veio só esse verso pequenininho, como se a música já existisse. E eu ouvi tudo: os sons da roça, o repente, a sanfona, tudo misturado na minha cabeça”.
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Ele contou que aquela música “Flor de Plástico” nunca mais saiu dele. “Voltei ao lugar onde meu pai foi vitimado. Quis ver o lugar. Fui sozinho, como ele foi. Sentei ali, com tudo acontecendo ao redor, e foi uma explosão na minha cabeça. A música chegou”.
Rita, então, respondeu com outra forma de escuta, a da música como caminho para o conhecimento. ““Aprendi a história da África com os blocos afro. Eles contavam coisas que não estavam nos livros nem nas aulas de história. Você tinha que ler a letra pra poder cantar. Tinha que estudar a letra. E nisso você fazia uma viagem e aprendia coisas que às vezes nem caíam no vestibular, mas que aumentavam o seu repertório de vida”.
Enquanto Russo falava da oralidade como herança familiar, Rita falava da leitura como herança afetiva. Cresceu cercada por enciclopédias, dicionários e compêndios de farmácia em casa. “Explorava esses materiais com meus avós e tios. O livro sempre foi uma excelente companhia. Tudo isso me deixava um passo à frente e eu sempre gostei disso”.
A jornalista e apresentadora falou sobre os desafios de ser mulher negra nos espaços midiáticos e destacou como a palavra se tornou seu escudo. Ela explicou que a televisão, assim como a música de Russo Passapusso, reflete a sociedade brasileira e que mudanças sociais foram necessárias para que pessoas negras ocupassem lugares no jornalismo, na teledramaturgia e no entretenimento.
E finalizou com uma mensagem de força e inspiração. “Cada ambiente que tem uma mulher negra, ela sabe o quanto demorou pra chegar ali, o quanto enfrentou pra estar naquele papel. É importante construirmos essas trajetórias e estimular meninas que querem ser cantoras, jornalistas, profissionais de qualquer área”.
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